“Todo filho é pai da morte de seu pai” Por: Fabrício Carpinejar

“Feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.”
Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai. É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho.
É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai. Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta. E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais. Uma das primeiras transformações acontece no banheiro. Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro. A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes. A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões. Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus. Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente? Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos. No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado,
frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai. Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.

A dieta de Sophie Deram,- O peso das dietas ( comentários )

Sophie Deram, autora do livro ” O peso das dietas defende o emagrecimento saudável e a retomada do prazer de comer. Coloca pontos bem interessantes e que servem de reflexão para um programa de reeducação alimentar visando perda de peso.
Essa autora condena as dietas restritivas , em especial com crianças e adolescentes. Essas dietas só estressam o corpo e fazem o cérebro alterar o metabolismo e o apetite . O cérebro desenvolve mecanismos de adaptação. ligando os genes do apetite e do armazenamento de gordura. Estudos mostram que a maioria das pessoas que fazem uma dieta muito restritiva voltam a engordar e correm risco de desenvolver compulsão e outros transtornos alimentares.
Para crianças e adolescentes sugere que o mais importante é procurar um profissional, nutricionista ou endocrinologista que ajudará a compor uma alimentação balanceada, adequada ao estilo de vida e também ao gosto e preferência. Dessa forma pode ser possível perder peso com saúde e prazer, comendo até doces e fast food
Primeiro é preciso refletir e concluir sobre a causa do ganho de peso: fatores emocionais,? ambientais? alimentação inadequada? sedentarismo? Cada um tem um metabolismo, uma história, uma razão diferente para o sobrepeso
Não se deve proibir a criança de ingerir nenhum alimento, nenhum alimento por si só vai fazer engordar ou emagrecer. Não adianta tentar culpabilizar a criança, proibi-la de ingerir determinados alimentos, e ficar vigiando sua alimentação. Ela tem de assumir o controle de sua alimentação e para isso tem de compreender os processos nutricionais e os que levam a ganho de peso.
Em geral, cortar um grupo alimentar não é adequado. Quando você está comendo com prazer, sem culpa, você come menos porque vai ficar satisfeito e não engole a comida; O importante é que a família se reeduque em termos de alimentação pois a dieta dos filhos começa no supermercado. Dentro do possível deveríamos privilegiar o alimento mais ‘in natura’ possível evitando ao máximo os industrializados. Yogurt natural junto com morango e um pouquinho de açúcar é preferível do que a versão light ou diet. As pessoas deveriam se perguntar ao comer, se estão com fome? e se necessitam ingerir toda a porção do alimento. Se já está sem fome, por que não parar de comer? Deve-se comer com prazer o que é diferente de comer com gula, é comer devagar o alimento que você gosta, saboreando e sem estresse.
Sophie aconselha incluir, cada vez mais, alimentos verdadeiros. e condena a retirada de qualquer alimento. Pode-se comer de tudo, mas inclua mais legumes, mais arroz, mais feijão. Tome mais água, evite o excesso de bebidas doces, tanto refrigerantes quanto sucos. Quando se inclui os alimentos verdadeiros na dieta, automaticamente, você vai comer menos dos outros.

O sono na infância e seus distúrbios

Organizado por Maria Luisa de oliveira Salomon

Para compreendermos os distúrbios do sono na infância, particularmente,   a insônia e a dificuldade em conciliar o sono, vamos iniciar revendo alguns conceitos sobre a fisiologia do sono e seu significado .

“O sono até os três meses de idade é  uma necessidade puramente  fisiológica  Contudo , sob a ação conjugada da ritmicidade endógena e da pressão do ambiente, transforma-se pouco a pouco, em uma função relacional fundamental.” (Ajuriaguerra&Marcelli, 1984)

É uma atividade humana carregada de  fascínio e mistério  e desperta os mais primitivos temores , associados ao desconhecido, à desproteção, e à morte.  Mas ao mesmo tempo é uma insubstituível fonte de prazer até para aqueles que  dizem dormir pouco por não necessitarem de tantas horas de sono. Não há quem viva sem dormir.

As características do sono  evoluem muito rapidamente desde os primeiros meses de vida . O sono se divide em dois grandes períodos 1) sono paradoxal e 2) sono calmo e lento. Habitualmente ele é dividido em 5 fases

AS FASES DO SONO

1ª: A primeira fase é a do adormecimento, responsável  por  5 a 8% do tempo total do sono, que pode durar de alguns instantes até cinco minutos. É uma  zona intermediária entre o estar acordado e dormindo. Nela a tensão muscular diminui e o cérebro produz ondas irregulares e rápidas. A respiração começa a tornar-se  suave  mas,  se a pessoa for acordada nessa fase ela reagirá rapidamente negando que estivesse dormindo.

2ª: Na segunda fase a temperatura corporal e os ritmos cardíacos diminuem, assim como as ondas cerebrais. Essa fase ocupa de 45% a 55% do tempo de sono, durando aproximadamente 20 minutos. A pessoa cruza o limite entre o estar acordado e dormindo e os olhos já não respondem a estímulos externos.

3ª: O corpo começa a entrar em um sono profundo. As ondas cerebrais tornam-se grandes e lentas. É uma fase rápida e dura apenas 5% do tempo total de sono

4ª: Na quarta fase,  o sono é profundo e a pessoa fica totalmente inconsciente. È a fase do sono lento calmo  e profundo e nela a pessoa se recupera do cansaço diário. É a fase fundamental para a liberação de hormônios ligados ao crescimento e para a recuperação de células e órgãos. Corresponde a menos de 20%  de tempo do sono .

5ª: Na quinta fase ou sono REM, a atividade está em pleno vapor e desencadeia o processo de formação de sonhos. A freqüência cardíaca e respiratória voltam a aumentar, os músculos ficam paralisados e a pressão arterial sobe. É nessa fase que o cérebro fixa as informações captadas durante o dia, mas descarta as menos importantes. (  fase de sono rápido, sono paradoxal ou REM).

Os sonos das crianças e dos adultos são diferentes.  Um recém-nascido dorme  , em media ,17 horas por dia , mas já por volta dos 3, 4 meses a média cai para  15 horas . O  ritmo e a quantidade vão se modificando lentamente e,  com um ano,  a criança costuma dormir por  volta de 13 horas,

No curso do sono ocorre uma alternância dessas diversas fases , Nas crianças o sono paradoxal chega a representar 50% do tempo do sono,  enquanto nos adultos não atinge 20%. O sono lento é observado principalmente nas quatro  primeiras horas de sono enquanto que o sono  paradoxal predomina  no fim da noite. Nas crianças,  até dois anos de idade, aparece uma fase paradoxal precoce  30, 40 minutos após o adormecimento.

Marcelli(2009) relata várias funções do sonho e do sono paradoxal. Há uma função de maturação, de liberação e de descarga de tensões instintivas e uma função de programação em que os traços mnésicos deixados pela experiência diurna são integrados, ligados e programados durante o sono paradoxal.

A partir dos trabalhos de Freud, o sono e o sonho passam a ocupar um lugar de destaque na teoria psicanalítica. Para Freud, o sonho é um compromisso entre a “realização de um desejo imaginário inconsciente” e  o efeito da diminuição da censura, que se torna  mais tolerante graças ao sonho, mas associada à manutenção da atividade pré-consciente que o sono preserva” (Marcelli, p 79).  Como se vê,  dentro da abordagem psicanalítica,  o sonho é um fenômeno passivo de descargas de desejos inconscientes .É também o guardião do sono, na medida em que permite que ele continue.

As pré formas do sonho já existem nos bebês mas é só a partir dos dois anos  ou   dois anos e meio que a criança pode fazer um relato do sonho. A natureza dos sonhos  varia: sonhos de realização de desejo, sonho de revivescência de acontecimentos passados, restos diurnos, sonho de punição e sonhos de angústia ou pesadelos.

Para adormecer, é preciso que a criança possa repousar, escorar-se em uma boa imagem fusional mãe/filho protetora, aceitar essa regressão e investi-la de uma carga libidinal não ameaçadora.  O papel do meio seria o de ordenar a área transacional do adormecimento para que a regressão seja aceita ou mesmo esperada ,

Uma das funções do pediatra seria orientar os pais a respeito do horário do sono das crianças.  É extremamente freqüente,  na clinica  depararmos com crianças que dormem muito pouco, ficam acordados ao lado dos  adultos e que  só adormecem,  por exaustão, na maioria das vezes,  fora de suas camas . Muitos , mesmo antes dos  cinco anos,  se negam a fazer a sesta e levantam muito cedo alterando toda a dinâmica familiar. Atualmente, com as modificações dos hábitos familiares ,  tem sido freqüente que crianças  durmam muito tarde, por volta das  22, 23 horas, o que é absolutamente inadequado e prejudicial para seu desenvolvimento físico e psíquico.

Encontramos muitas crianças irritadiças, nervosas . com dificuldades de concentração, agitadas, simplesmente por que não estão dormindo o suficiente .Os pais precisam ser orientados quanto à necessidade e o  benefício do sono iniciar-se por volta das 20:30 h  e para a manutenção  da sesta quando se trata de  crianças menores. È importante que a sesta  ocorra em horários e períodos de tempo que não interfiram nas outras funções,  igualmente necessárias e  importantes para a criança. como brincar, almoçar, ter convívio com a família,  dormir antes das  21 horas.

DISTÚRBIOS DO ADORMECIMENTO

A insônia no primeiro ano de vida é  freqüente e  parece refletir  um problema relacional entre o bebê e o  ambiente. Em geral, essa insônia está ligada a condições inapropriadas do ambiente físico ou humano ( rigidez excessiva dos horários de refeição, excesso de alimentação,  condições acústicas inadequadas) e  desaparece quando  ocorre uma melhoria dessas condições .

Existem outros quadros de insônia,  mais graves onde o bebê  chora, grita, fica muito agitado, com balanceios ou , contrariamente,  pode ficar deitado de olhos arregalados, silencioso,  sem nada pedir e  sem chorar.  Estas insônias estão presentes em patologias graves como psicose, autismo e traduzem o fracasso na capacidade de regressão do bebê,  a uma boa imagem fusional com a mãe protetora , na qual o sonho do bebê se apóia normalmente ( Fain)

Qualquer insônia precoce grave  é preocupante e requer uma investigação psicodinâmica profunda das interações familiares, em particular da relação mãe/ filho.

DIFICULDADES PARA CONCILIAR O SONO

Bem mais freqüente que as insônias são as dificuldades de adormecimento que fazem parte do desenvolvimento normal da grande maioria das crianças, sobretudo entre  2 e 6 anos.

Dormir não é  um estado tão natural. É preciso criar o hábito, para  aprender a dormir. O sono não é um estado inconsciente pois o cérebro continua tão ativo como  quando estamos acordados. O cérebro nunca dorme.  Uma má noite de sono provoca irritabilidade, nervosia, e é responsável por um mau desempenho pois dificulta a capacidade de concentração e de aprendizagem . De uma forma mais simples , a teoria diz que o sono dá às células do corpo uma oportunidade para se regenerarem enquanto que,  ao próprio cérebro,  é dado tempo para arrumar as experiências do dia.

A maior parte das dificuldades de adormecimento resultam de condições exteriores impróprias como barulho, coabitação com pais ou outras pessoas, irregularidade no  horário de se  deitar, ou devido a uma pressão externa inadequada ( rigidez excessiva ou oposição aos pais)  e ainda devido a um estado de ansiedade ou de uma organização conflituosa interna que faz temer a regressão induzida pelo sono.

Muitas crianças precisam ser ensinadas a dormir e para que elas adquiram  o  bom hábito de sono são necessários vários requisitos. Crianças pequenas costumam ter dificuldade de aceitar a regressão que traz  o adormecimento, na medida em que a aparição dos primeiros sonhos de angústia faz do sono um estado inquietante. A  criança que teve sonhos ruins costuma não querer se deitar,  luta contra o sono,instaura diversos rituais obsessivos ( exige um objeto contrafóbico como  luz acesa,  dedo, bico, bichos de pelúcia etc.) exige a  presença dos pais, velando por ela, ou contando uma história.  Essas manifestações obsessivas discretas traduzem a tentativa de  dominar a angustia suscitada pela  ruptura  da relação e da emergência pulsional . Os pais percebem essas dificuldades e a necessidade da criança quando atendem a criança, contando histórias, cantando para favorecer o relaxamento.  É um hábito saudável e tranqüilizador para que a criança adormeça assegurando-se da presença e proteção dos adultos que cuidam dela. Isso pode ser feito através de uma pequena historia, ficando um pouco ao lado da criança, ou colocando uma musica calma e em tom bem baixo.

Os pais  devem estabelecer uma  rotina  de horários para o sono, mantendo um ritual específico antes de dormir. Esse roteiro poderia incluir o banho, ir para o quarto, reduzir a luz , amamentar e ir para o berço com crianças ainda  em amamentação . Tudo isso contribui para que o bebê relaxe e, em conseqüência, durma melhor.

Com relação a crianças de  2, 3 anos ,  a rotina poderia incluir  banho, deitar-se, ouvir uma historia contada pelo pai ou pela mãe , ao seu lado  e  a seguir mostrar à  criança a  postura correta  de dormir,  despedindo-se  dos pais com um beijo, saudação, orações ou preces de acordo com a filosofia de vida da família.

É  importante que  nos rituais para dormir as crianças entendam a necessidade da escuridão ou diminuição significativa da luz e  do silêncio. É preciso que estes estímulos externos estejam associados ao sono noturno. Assim não é recomendado que existam aparelhos de TV no quarto ou outros eletrônicos, mesmo com crianças mais velhas. O hábito de uma música suave em tom baixo, se foi introduzido desde os primeiros meses de vida, pode ser um bom substituto da  presença dos pais para algumas crianças.

Para uma boa noite de sono a criança deve estar bem alimentada ,assim, a mamada noturna (ou o lanche / jantar ) tem um papel importante para que ela  durma por mais horas e melhor.

Respeitando estas condições fica facilitada a tarefa de ensinar os filhos a dormir. Dessa forma eles aprendem a  conciliar o sono por si sós, sem a ajuda de ninguém. Para que ocorra essa aprendizagem é necessário uma atitude adequada por parte dos pais ( segurança, tranqüilidade  atitude de ensinar e repetição) e a manutenção regular de elementos externos ( cama ou berço, ursinho, chupeta, a historinha contada, a musica cantada ). Não  é tarefa fácil de se obter. Quanto mais cedo se começa,mais facilmente se conseguirá o sucesso  pretendido..

As crianças percebem os estados emocionais dos adultos,, Nesse caso a criança não se sentirá segura para dormir; não incorporará o hábito do sono  se os pais não lhe transmitirem a segurança de que ela precisa para entender que,  deitar e adormecer,  é  uma  coisa  natural , saudável e necessária ..

A maior parte dos especialistas em sono, aconselham que não se deve ficar ao lado da criança esperando que ela durma, cantando ou embalando-a nos braços. De fato , se os pais conseguirem desde o segundo, terceiro mês de vida de um bebê, que ele fique no berço ao anoitecer e durma sozinho, será ótimo para pais e filhos. Contudo, nem sempre isso ocorre e não necessariamente por falta ou inexperiência dos pais. Cada criança tem uma personalidade básica, um ritmo biológico e estes interferem com os aspectos do ambiente  dificultando o sono.

Quando não se conseguiu ensinar um bebê a dormir sozinho, outras técnicas e táticas  precisam  ser introduzidas e tentadas pelos pais tornando-os muito ansiosos e cansados,  o que tende a piorar a relação com a criança.

Ficar ao lado da criança, sentada, em silencio, apenas mostrando que se está ali ao lado dela,  pode funcionar como fator tranqüilizador. e necessário para  muitas  crianças.  Algumas mães, cantam , contam estórias o que pode  ser   útil e necessário,  desde que não se torne obrigatório.

Pais que tiveram tempo  para ficar um pouco com os filhos, fizeram a refeição noturna juntos, brincaram um pouco com os filhos, desenhando,  vendo filminho, contanto estórias  vão ter  mais facilidade para colocar os limites necessários, indicando a hora de dormir, mostrando a eles que a criança precisa disso para crescer saudável e tornando claro, que  os pais também precisam de um tempo a sós para eles.

O ideal é que a musica, a estória ocorram só nos momentos iniciais e aos poucos os pais devem ir se retirando para que a criança, com seu bichinho de estimação, bico ou manta,  possa aprender a dormir.

Sintetizando para reeducar seu filho de mais de 3 anos e que ainda não adquiriu o hábito do sono, seguiremos os mesmo passos. Primeiro um banho relaxante, depois o jantar idealmente por volta das 20 horas,  seguido de alguns minutos, em que vocês ficarão juntos fazendo algo agradável ( uma canção de ninar, uma historia, um jogo tranqüilo ) Depois desse ritual, é hora de levá-lo ao banheiro, acompanhá-lo até a cama, dar-lhe  boa-noite e sair do quarto enquanto seu filho ainda estiver acordado.  Isso deve ser feito  por volta das oito e meia  às nove horas da noite.

O horário deve ser seguido com rigor, e a escolha não é fortuita. Tem a ver com o fato de que o cérebro da criança está preparado para ir dormir por volta das oito e meia da noite.

Estivill e Béjar (2006) sugerem dar um boneco para a criança  e dizer algo como : ” a partir de hoje  você vai dormir com  o Chiquinho, ele ficará com você a noite toda” Mesmo que a criança não demonstre entusiasmo, deixe o boneco com ela e continue com essa mensagem mesmo se a criança estiver chorando, reclamando , não querendo deitar” .

Os pais não devem amolecer nem deixar que a criança imponha condições  ( deixa eu dormir na sua cama, no sofá,  ligue a TV, etc. ) Não podem se deixar envolver pelos truques que as crianças costumam utilizar nessa hora: estou com fome, sede, quero fazer xixi, estou com medo…. Se você cumpriu o ritual sabe que ele não está com fome, com sede nem com vontade de fazer xixi. Quanto ao medo tranqüilize-o sem perguntar muito, dizendo que ele está seguro, que nada de ruim pode acontecer com ele e que você está ali presente na casa.

Mesmo que a criança chore não altere a rotina imposta . Se ela chamar você de volta ao quarto, deixe passar um minuto e volte ao quarto,  não para fazê-la dormir, mas para que ela veja que você não a abandonou , O máximo que deveria ser dito nessa hora seria algo como “o tanto que você a ama e que está ensinando-a  a dormir o que é importante que ela  aprenda.”  Você vai dormir aqui com .. o Chiquinho, o ursinho, etc.”  A criança precisa entender que os pais a amam mas que não vão ceder e não vão ficar no quarto  por mais que ela chore e faça cenas.  Precisa sentir a segurança dos pais, e nessa fase inicial de treinamento do sono, os pais podem ter de voltar ao quarto várias vezes durante a noite, mas sempre apenas repetindo esse ritual

( Estivill e Bejar, 2006) .

Quando uma criança acorda no meio da madrugada , ela se sente sozinha, desamparada e pode ter medo, assim, precisará se garantir da presença dos pais para se tranqüilizar,  Se isso ocorre durante o treino do habito de sono, o recomendado seria voltar com o condicionamento, ficar um pouco ao lado da criança e logo sair. Se a criança  já tinha hábitos de sono e ocorre esse despertar  é importante atende-la, perguntar o que ocorreu, e tentar tranqüilizá-la voltando com ela para o quarto. A criança deve ser acolhida carinhosamente  por alguns minutos e, posteriormente ser levada de volta para a cama  – mesmo que isto implique em fazer o trajeto várias vezes. Os pais  não devem se sucumbir deitando com a criança ou levando-a para dormir com o casal. Caso necessário, melhor seria ficar alguns minutos em uma cadeira a seu lado. Se a criança foi para seu quarto leve-a de volta tranquilamente  e diga  que  lá não é o lugar para ela dormir,  já que é o quarto do papai e da mamãe. Não se deve voltar ao quarto imediatamente assim que a criança chamar. Se  chamar varias vezes  na mesma noite, deve-se ir aumentando o tempo de espera para atender o seu chamado, sem nunca passar de  cinco minutos, tempo  que não deve ser ultrapassado para que a criança não se desespere e não se sinta abandonada.

Os sistemas que envolvem o medo e a angústia de separação tornam-se menos marcantes com o tempo, pelo desenvolvimento do cérebro que começa naturalmente a inibi-los. Quando as crianças compreendem que não há qualquer perigo, que os pais estão no quarto ao lado e que, se precisarem, virão ao seu encontro, são capazes de dormir sozinhas sem chorar e sem chamá-los.

Nessas situações podem ocorrer alterações no sono das crianças( dificuldade em conciliar o sono, resistência ao dormir, passar para o quarto dos pais )  e é importante  que os pais possam atender as necessidades físicas e emocionais dos filhos.Precisam estar disponíveis para alimentar, proteger e acolher o filho também à noite. A criança precisa vivenciar que seus pais estarão sempre dispostos a protegê-la, mas que cada um tem o seu espaço na constituição familiar e que ela tem o seu quarto assim como os pais têm o deles.

É relativamente  comum que os filhos pequenos apareçam no meio da noite à procura de um cantinho na cama da mamãe e do papai. Geralmente isto ocorre entre os 2 e 5 anos.  Os pais podem se sentir tentados a permitir, seja por cansaço ou pena, Mas será que essa é uma atitude saudável?

Quando é permitido que os filhos permaneçam na cama de seus pais, contribui-se para que a criança venha a desenvolver características e conflitos  que podem marcar sua personalidade até na vida adulta Pode manter-se muito dependente da mãe, ciumenta e possessiva, ter dificuldades de obter autonomia e segurança e ainda interferir no seu posicionamento edípico na medida em que separa o casal ou faz casal com um dos pais. A cama dos pais  pode ser muito agradável e acolhedora, especialmente em manhas nos finais de semana, á tardinha para ver um filme juntos,  mas se constitui em uma perigosa armadilha na formação do desejo sexual e da personalidade da criança. Ela deve ser levada a perceber que a cama é do casal e que ela não deve dormir com eles. É um corte, uma lei, que ao mesmo tempo que legitima e fortalece a relação do casal, ajuda a criança a se desligar da mãe  com quem ainda está  tendo um vinculo muito intenso e simbiótico.

Essas  técnicas,  contudo, podem não funcionar  se seu filho tem dificuldades para dormir devido a algum problema emocional : angustias, medos e ansiedades.  Reflitam sobre o ambiente familiar para ver se conseguem perceber a origem da ansiedade da criança.   Nascimento de um irmão, mudança de escola,  cenas de violência na TV, discussão em casa,   mudanças no tempo de convívio com os pais, viagens,  são algumas das situações que podem  angustiar a criança e repercutir no sono dela.

É importante garantir a privacidade e a  intimidade do casal . A presença de crianças junto aos  pais,  no mesmo quarto, ou na mesma  cama , o entrar  no quarto a qualquer momento , interferem muito e negativamente no relacionamento sexual dos pais. A falta de intimidade afeta o relacionamento do casal. É lógico , que nenhum casamento se desfaz por enfraquecimento temporário da vida sexual do casal que devia estar preparado para essa fase nos primeiros meses de vida de uma criança. Contudo, a persistência dos  transtornos de sono e alterações na dinâmica familiar  mostra a necessidade de se buscar ajuda especializada para se compreender melhor o que está acontecendo com a criança e com a família.

Temos  constatado  na clínica , que muitas vezes a criança continua a dormir com os pais, não por uma necessidade imperiosa  manifesta por angustia  e medos. Neste caso, observa-se que é o casal ,  ou um dos conjuges que precisa da criança no seu  meio para  tampar o buraco, o  vazio que existe na convivência desse casal.

Filhos não existem nem devem vir  ao mundo para salvar  um casamento, fortalecê-lo ou dar-lhe um sentido. Contudo não são raras as situações em  que os pais, mesmo inconscientemente,  usam  a presença do filho na cama do casal como forma de evitar o confronto, o diálogo.

Muitas vezes a dificuldade em conciliar o sono na criança  é expressão  de  sua angústia . Ela pode não se sentir segura para enfrentar a separação e a regressão necessária para o sono , e sentir  um forte desamparo quando precisa enfrentar situações que estão além  de seu limiar de tolerância.  Quanto mais rapidamente essa criança receber assistência nesse estado de angustia, mais eficiente será a liberação das frustrações e medos dela decorrentes.

É difícil encontrar um substrato comum para os estados de apreensão e medo infantis, a não ser o desamparo universalmente experimentado por todos os seres humanos frente aos perigos da própria vida e que têm suas origens muito arcaicas no inconsciente coletivo ( Adrados1980)  O medo mais intenso que uma criança experimenta quando ainda muito nova é o da separação da mãe..

Outra fonte comum de angústia nas crianças é a repressão de sentimentos hostis  principalmente em relação aos pais.  A agressividade reprimida seja ela dirigida aos pais, irmãos ou familiares é a causa mais freqüente  de angustia que  costuma vir  acompanhada de sentimento de culpa.

Nesse caso,  o importante é sanar a causa que motiva a angustia, para que ela não se cronifique e venha a irromper mais tarde sob a forma de sintomas ou seja  sob a forma de uma neurose

Referencias

Estivill, Eduard e Béjara Sylvia  Nana, nenê  como resolver o problema da insôonia do seu filho  Ed Martins Fontes, 2006

Marcelli, Daniel e Cohen Davi   Infancia e psicopatologia  Ed artes medicas ,2009

As perdas necessárias, a morte, o envelhecer. Reflexões a partir do texto : Somos todos passageiros Por Gustl Rosenkranz

Pois é, por mais que saibamos que todos nós vamos um dia abandonar este mundo, por mais que a morte faça parte da vida e por mais que tenhamos maturidade suficiente para aceitá-la, sempre nos chocamos quando morre alguém que conhecemos, principalmente quando a morte vem de uma forma inesperada.

Fico imaginando a vida como um trem longuíssimo, com vários vagões. Neste trem só se embarca pela frente e tem-se então que caminhar por todos os vagões (as etapas da vida) até chegar ao último, onde então desembarcamos e deixamos de viver (neste mundo). Até aí, tudo bem: todos já embarcamos sabendo disso – ou ficamos sabendo bem cedo – e sabemos também que é inevitável. Aceitamos assim nosso destino e caminhamos de vagão para vagão, aprendendo, crescendo, vivendo. E, neste trem, viajam também diversas pessoas, algumas que embarcaram já antes de nós, outras que embarcaram conosco e já outras que vão embarcando depois nas diversas estações da vida. É também nessas estações que desembarcam aqueles que já se encontram no último vagão e que já passaram por todo o trem. Alguns vão felizes, pois sabem que tiraram o melhor proveito da viagem, outros vão amargos e solitários, pois só entenderam tarde demais que tinham muito o que aprender com aqueles outros passageiros que rejeitou e hostilizou o tempo todo. Já outros relutam, não querem desembarcar de forma alguma, tentando voltar para o vagão anterior (ou mesmo vários vagões atrás!), mas percebem que isso não é possível, pois a porta entre os vagões só permitem a passagem em um único sentido: do início para o fim, do nascimento para a morte.

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Os passageiros que se encontram mais à frente, que ainda têm vários vagões para percorrer, sabem que há pessoas queridas no fim do trem e ficam tristes, pois têm consciência de que eles logo descerão, mas aceitam, principalmente por saberem que não há outro jeito mesmo. O destino da vida é a morte, a morte faz parte da vida. Quando alguém então vai, isso dói e se fica triste, mas a dor é mais amena quando já contávamos com isso, porque houve então um tempo de familiarização, houve um tempo de despedida. Mas às vezes acontece de alguém, que ainda teria uma longa viagem pela frente, que estava ali, no meio do trem, no meio da vida, ser de repente levado para o último vagão ou mesmo para fora do trem, assim, sem que ninguém esperasse, de um momento para o outro. Alguém se vai e não conseguimos entender. Ficamos então chocados, primeiro pela perda, mas também por percebermos nossa fragilidade e por a vida nos lembrar que somos todos passageiros, passantes, viajantes no trem da vida. É como se passasse o chefe do trem pedindo para ver o bilhete e o destino de cada passageiro, lembrando a todos que estamos a caminho e que cada um de nós vai ter que descer um dia.

Às vezes, acontece alguma coisa (uma catástrofe, uma epidemia, uma guerra…) e muitos abandonam o trem de uma vez só. E tem aqueles que, por tanto medo do que os espera nos vagões seguintes, terminam desistindo e descendo do trem muito antes de chegar sua estação.

Tenho a impressão de que a maior parte das pessoas evita pensar nisso e mais ainda falar disso. Entendo isso muito bem. Não acho que seria saudável se ocupar com a morte o tempo todo. Isso não seria bom. É mais fecundo pensar na vida. A morte é inevitável, todos vamos morrer e creio que não faz sentido algum negar isso e fazer de conta que a morte não existe, pois isso seria fugir de algo que precisamos aceitar para que possamos viver plenamente. Mas não precisamos ficar falando da morte o tempo todo. Só não devemos ignorá-la. É importante aceitá-la e ter consciência de que tudo este mundo é passageiro, tudo passa, tudo acaba. Tudo mesmo, também eu, também você. Quem aceita isso desenvolve uma maior capacidade de relativizar muitos problemas da vida e de perceber que é substancial dar a prioridade certa às coisas, que nem tudo é realmente tão importante assim. Essa pessoa entende que seu tempo no trem da vida é curto (talvez muito mais curto do que imagina) e que ainda tem muitos vagões para viver.

Gosto da palavra ‘passageiro’ em alemão: ‘Fahrgast’. ‘Gast’ é visitante, hóspede. Ao entrar em um trem, ônibus ou táxi na Alemanha, você é um Fahrgast, que eu traduzo aqui como visitante viajante. Nós estamos visitando este mundo e viajando por ele. Ele não é nosso. Mesmo assim, entre, chegue à frente, sinta-se em casa, mas com o respeito de quem só está passando, aproveitando a viagem intensamente, mas sem se prender a nada que não seja realmente essencial, pois uma hora você vai ter que descer. E você terá que deixar para trás tudo que guardou e não cabe em sua bagagem. Por isso, é mais sábio guardar somente aquilo que realmente tem um significado verdadeiro e mais profundo. Viva sua vida plenamente, busque relações sinceras, não deixe que o medo (nem o seu, nem o de ninguém!) lhe prenda, tenha coragem, viva cada momento intensamente, de uma forma madura, sendo bom para você mesmo, tratando você com carinho, não por vaidade ou egoísmo, mas por saber que você mesmo é a melhor companhia que você tem, é a única que com certeza plena ficará ao seu lado até seu desembarque do último vagão do trem da vida.

Momentos como esses, de choque, de saber que alguém morreu, são sempre tristes. Mas é também um desses momentos que nos convida a parar e refletir, talvez com o sentimento saudável de que precisamos nos concentrar mais no que é essencial e de que vivemos correndo atrás de muita coisa que não faz sentido, que desperdiçamos nosso precioso tempo cuidando de coisas sem real importância e descuidando do que realmente conta. Para mim o sentido da vida é viver e não ficar procurando por ele. E muito menos ficar esperando pelo momento certo de começar a viver

Bem a leitura desse texto, me remeteu a outro texto que tive acesso a partir de uma amiga, o texto de Santo Agostinho sobre a morte

Santo Agostinho: A morte não é nada. Eu somente passei…

A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.

Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho…

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.

Santo Agostinho

Bonito texto, nao ?

Pensar sobre a morte é sempre difícil ; Mesmo sem negá-la,  é saudável investir na vida e no viver e  não nos prendermos demasiadamente no tema da morte. Da morte, nada sabemos ou conhecemos. Pensar sobre ela nos causa aflição, dor, angustias , impotência e estranheza . Na  nossa cultura é tabu falar da morte, do adoecer, da finiturde da vida. Teoricamente é fácil dizer que morrer faz parte do ciclo vital  e que é uma consequência natural e certa da vida, da qual ninguém escapará; Mas ao perdermos alguém querido não temos mais como nos defender e não é mais possível  ocultar tal pensamento.É angustiante ao ser humano tomar consciência de sua finitude, já que celebra cotidianamente a vida, sem pensar a morte.É uma  angústia metafísica, que sempre ocorreu na história da humanidde, representada principalmente pelo culto aos mortos, a crença na imortalidade, na vida depois da morte, o que simboliza a recusa da própria destruição e o anseio de eternidade.

“Do ponto de vista psiquiátrico, isto é, bastante compreensível e talvez explique melhor pela noção básica de que, em nosso inconsciente, a morte nunca é possível quando se trata de nós mesmos. É inconcebível para o inconsciente imaginar um fim real para nossa vida na terra e, se a vida tem um fim, este será sempre atribuído a uma intervenção maligna fora do nosso alcance.” (KÜBLER-ROSS, 1996 p. 14).
Hoje a morte não é definida como o cessamento dos batimentos cardíacos e sim como morte encefálica e   é vista como um processo, e não como um momento.
Atualmente as pessoas se deparam mais objetivamente com o tema do envelhecer e passam a fazer planejamentos financeiros futuros  para ter uma velhice tranquila , Por outro lado a sociedade cada dia mais investe na medicina estética, corretiva, preventiva e curativa , usa técnicas modernas como a clonagem de células tronco para a prevenção de doenças e para retardar a morte. A expectativa de vida das pessoas  se ampliou muito e  não é incomum encontramos pessoas já depois dos 60 , 70 anos  com expectativas e ideais  de chegarem aos 100  anos. Trabalha-se ampliação do ciclo vital mas não se abordam os aspectos subjetivos de nossa finitude, o nosso deixar de existir.
NInguém sabe qual será a sua hora final nem a de seus entes queridos e a morte não é apenas e somente consequência do envelhecimento ou do adoecer. Podemos ser arrancados da vida a qualquer momento, sem nenhum aviso prévio.
Contudo , o significado da morte não  é totalmente novo para o ser humano, enquanto final da existência humana, a morte é antecedida por diversas formas de morte  que fazem  parte do processo de desenvolvimento do ser humano; O nascimento já seria uma primeira morte no sentido  da primeira perda, da primeira ruptura, da primeira separação que ocorre com o rompimento do cordão umbilical .É o fim da simbiose do feto com o útero materno,  representando a perda do estado de equilíbrio com a mãe, do estado de nirvana  com sua total ausência de tensões e sem necessidades,  perda do ambiente acolhedor , de  holding e sustentação que é substituído pelo meio ambiente externo no qual viveremos.  A separação do vinculo simbiótico com a mãe e a descoberta do seu eu é outro momento de perda necessário para se obter a individualidade.  Outra perda importante é a do corpo infantil e dos pais da infância quanto entramos na adolescência e assim vamos acumulando perdas que culminam com a perda da juventude na terceira idade. Cada uma dessas mortes, dessas perdas deixa efeitos e marcas em nossa personalidade que determinam a forma como vivenciaremos  outras futuras perdas.  As vivências de perdas e separações infligem nos seres humanos sofrimentos e marcas indeléveis. Mas viver é um acúmulo de perdas e ganhos, frustrações e gratificações,  que vão constituindo a história de cada um.
Na nossa sociedade atual altamente competitiva não temos tempo para pensar ,refletir, vivemos num ritmo acelerado  e não se pode parar, não temos tempo para pensar na nossa subjetividade e  existência e não temos tempo para os velhos, para os doentes. Não existe a valorização do idoso como nas culturas orientais onde velhice poderia significar sabedoria,e predomina a discriminação, a rejeição e mesmo o abandono do velho.   Muitos idosos são menosprezados em suas próprias casas ou esquecidos em instituições de acolhimento.
As pessoas mais jovens se queixam da forma de ser e funcionar dos idosos, ficam  irritados  porque o velho não escuta bem,pede  para repetir . Não têm paciência para repetir inúmeras vezes a mesma pergunta e acabam deixando o velho sozinho e isolado em sua casa. Assim  muitos idosos ficam isolados em seu próprio mundo: o mundo do silêncio e da morte.
Essa conduta dos familiares, em especial os mais jovens, ( netos)  magoa muito ao idoso, que esperava um outro tratamento e essa indiferença fere o seu coração, . Diante desse quadro muitos  querem morrer , o mais rápido possível, mas também têm medo de com será essa hora. Com este estado de ânimo, a depressão logo se aloja complicando mais a estabilidade e o humor dos idosos ,  muitas vezes afetando o físico. Deixam de cuidar de si, não tomam as medicações nas horas certas, ficam recolhidos em sua cama , desvitalizam-se.
Nesses caso seria importantíssimo uma casa para idosos como já temos algumas  em Belo Horizonte que podem acolher carinhosamente nossos idosos , permitindo que eles convivam com seus pares, recebam atenção   que necessitam  e que possam criar uma nova forma de encarar a velhice  que não  seja ficar esperando a morte,  rezando por ela.
Grande parte deles adoecem e passam grande parte do tempo em clinicas e hospitais assépticos  e frios.  A medicina cada vez mais lança mão de técnicas sofisticadas para prolongar a vida,  mas  por outro lado esses doentes, na maioria idosos,  são condenados  à impessoalidade do atendimento médico hospitalar, ao isolamento e à solidão . Podem até receber, se tiverem acesso econômico a atendimentos de qualidade , tratamentos eficientes e sofisticados mas são separados de suas famílias e muitas vezes tratados sem afeito e sensibilidade, sem a atenção que deveriam receber.  Sei que existem instituições diferenciadas , com nova visão sobre o envelhecimento e que podem propiciar um ambiente rico e acolhedor para o idoso.
Via de regra  o  idoso, está apavorado com a proximidade da morte: o maior temor de todos os seres humanos . Ela está para chegar,  e a data se aproxima a cada dia, embora não se saiba quando será  , como será.A  vivência da morte de uma pessoa  próxima tumultua muito ao idoso, não tem como não pensar na sua própria morte. 
Com essas angustias os mais jovens não têm como se identificar pois em geral nem ainda se defrontaram com a morte de familiares.Por outro lado os seres humanos não gostam de ser cobrados, nem de se sentirem em dívida emocional para com os pais. É mais fácil esquecer  o que já  fizeram por  eles , desde a doação da vida, até todos cuidados diários no preíodo em que dependiam totalmente dessa atenção do adulto. Todos os filhos devem muito aos pais mas não são todos que reconhecem.
É essencial que a sociedade possa refletir mais sobre o sentido da vida, o envelhecer, a  morte.  Que os filhos reflitam sobre sua possibilidade de ainda conviver com os pais, seja morando com eles, seja visitando-os com muita frequência  se passarem a residir em casas para idosos. Há uma grande possibilidade de, quando velhos, serem  tratados da forma que você trata a seus pais.   A natureza nos devolve aquilo que demos, colhemos o que semeamos.
A experiência de conviver com a velhice, mesmo sem a doença crônica como companheira, é de fato extremamente difícil, pesada, mas também uma oportunidade que ainda temos de reparar, de termos compaixão, e principalmente é uma última oportunidade para externarmos nossa gratidão por tudo que recebemos de nossos velhos, pais, avós, tios.
Todos  precisam de um carinho, de um toque, palavras gentis,  gestos de amor, mas os velhos precisam disso tudo em doses bem grandes pois o estoque acabou e  a vida não tem lhe oferecido esses ingredientes. Há quanto tempo não lhes oferecemos um toque, um carinho, um beijo, ou um abraço apertado?
Espero que possamos voltar a esse tema outras vezes  e recomendo que assistam alguns filmes especiais e que envolvem essa temática:
1)  Minhas tardes com Margueritte”, (Gerárd Depardieu)
2) A balada de Narayama  (no fim do século XIX no interior empobrecido do Japão, instituiu-se uma tradição cruel: quando completassem 70 anos de idade, os moradores de uma vila deveriam subir na montanha sagrada de sua região e lá esperarem sozinhos por sua morte. o filme fala de um filho, que tem a missão de levar sua mão até este destino. ( Shohei Imamura)
Morangos Silvestres (um velho professor viaja de carro. com sua nora, para ser homenageado na universidade onde lecionou por 50 anos. no caminho conhece pessoas, que o fazem reviver momentos de sua vida, marcada pela frieza e confrontar o próprio vazio de sua existência. genial road movie existencial de Ingmar Bergman)
4) O Filho da Noiva (Ricardo Darin é um homem de 42 anos, que dirige o restaurante fundado pelo pai, sem conseguir escapar de sua sombra. a mãe está internada num asilo, perdendo a memória rapidamente. após um ataque cardíaco, ele começa a ver a vida com outros olhos e aproximar-se de seus pais passa a ser prioridade. lindo filme argentino de Juan José Campanella)
5) Longe  Dela: um casal feliz, que tem a vida abalada quando ela começa a apresentar sinais de perda de memórias. ela se interna numa clínica e por 30 dias não poderia receber visitas.
6)Num Lago Dourado (Jane Fonda é a filha, que vai com o novo marido e seu enteado passar o aniversário de 80 anos do pai – seu pai Henry Fonda – na casa onde vive com sua mãe – Katharine Hepburn – junto a um belo lago.ela acaba deixando o enteado adolescente com os pais, para viajar para a Europa. o velho e o garoto passam do choque de gerações a uma verdadeira amizade .
7)Uma História Real (Richard Farnsworth é um fazendeiro, que fica sabendo que o irmão, que não vê há 10 anos, sofreu um derrame e vai ao seu encontro para reconciliar-se, dirigindo um – impensável – pequeno trator por mais de 300 quilômetros. provavelmente o filme mais convencional de David Lynch. uma bela história)
8) Diário de uma Paixão
Talvez o mais conhecido de todos, o filme uma história de Duke e Allie. Os dois vivem em uma clínica geriátrica e ele conta para ela, que sofre de Alzheimer, a história de amor que os dois vivem desde 1940.
9) Up: Altas Aventuras
Ainda que seja uma animação, o filme conta para crianças e adultos, sobre alguns medos, mas, principalmente, sobre as aventuras emocionantes que podem acontecer quando se chega à terceira idade.
10)Diário de uma Paixão
Talvez o mais conhecido de todos, o filme uma história de Duke e Allie. Os dois vivem em uma clínica geriátrica e ele conta para ela, que sofre de Alzheimer, a história de amor que os dois vivem desde 1940.
11)E se vivêssemos todos juntos? 
Dois casais e um solteirâo convicto amigos há mais de 40 anos decidem viver juntos em uma mesma casa.

O precursor do espelho é o rosto da mãe Conceitos de Donald Winnicott por Márcio Ferrari

espelho
“Os educadores devem fornecer holding (seria o somatório de aconchego, percepção, proteção e alegria) no ambiente escolar”, segundo Bogomoletz. Isso significa tratar cada aluno como ele precisa. O termo “inclusão”, se levado a sério, indica uma atitude de holding. O acolhimento adequado pode, portanto, ajudar uma criança regida por um self falso – geralmente boazinha e obediente – a se tornar mais espontânea. Nada mais importante, nesse sentido, do que o papel da brincadeira – fundamental para Winnicott, não apenas na infância, por misturar e conciliar o manejo do mundo objetivo e a imaginação. Brincar pressupõe segurança e criatividade, diz Bogomoletz. Crianças com problemas emocionais graves não brincam, pois não conseguem ser criativas.”

linha

“O precursor do espelho é o rosto da mãe.”

“O buscar só pode vir a partir do funcionamento amorfo e desconexo, ou talvez do brincar rudimentar, como se em uma zona neutra. É apenas aqui, nesse estado não integrado da personalidade, que o criativo, tal como o descrevemos, pode emergir.”

O psicanalista Donald Winnicott trabalhava com crianças separadas de suas famílias em consequência da Segunda Guerra Mundial quando encontrou um interessante campo de estudo que lhe permitiu perceber etapas fundamentais do desenvolvimento da pessoa. Donald Winnicott constatou, por exemplo, a importância do brincar e dos primeiros anos de vida na construção da identidade pessoal. As conclusões a que ele chegou são preciosas para o trabalho dos educadores.

Boa parte dos conceitos de Winnicott se refere ao “desenvolvimento emocional primitivo”, cujos efeitos, segundo ele, são de importância crucial para o indivíduo por se estenderem para além da infância. Muitos problemas da fase adulta estariam vinculados a disfunções ocorridas entre a criança e o “ambiente”, representado geralmente pela mãe.

Os conceitos de verdadeiro e falso self (em inglês, palavra que se refere à própria pessoa) são um bom exemplo. “O self se forma com base nas experiências que o bebê acumula”, diz o psicanalista Davy Bogomoletz, de São Paulo. “É aquilo que, embora indefinível, faz o indivíduo sentir que ele é único.” A relação com a mãe leva o bebê a administrar a própria espontaneidade e as expectativas externas. “Se a mãe aceitar as manifestações do bebê – como a fome, o desconforto, o prazer e a vontade -, em vez de impor o que acredita ser o certo, o bebê vai acumulando experiências nas quais ele é sempre o sujeito, e o self que se forma pode então ser considerado verdadeiro”, explica Bogomoletz. Porém o self construído em torno da vontade alheia é o que Winnicott chama de falso e que priva o indivíduo de liberdade e de criatividade.

Aconchego e proteção

Uma das frases famosas de Winnicott é “não existe essa coisa chamada bebê”, querendo dizer que não há criança sem uma mãe (que não precisa ser necessariamente a que deu à luz). Vem daí a idéia da “mãe suficientemente boa”, aquela cuja percepção – consciente ou inconsciente – das necessidades do bebê a leva a responder adequadamente aos diferentes estágios do desenvolvimento dele. Isso faz com que se crie um ambiente – nomeado por Winnicott de holding (cuja melhor tradução para o português, segundo Bogomoletz, seria “colo”) – propício a um processo de formação de um ser humano independente. “O holding é o somatório de aconchego, percepção, proteção e alegria fornecidos pela mãe”, diz ele. Começa como algo vital, como o oxigênio e a alimentação, e se dilui conforme o bebê cresce.

“Os educadores devem fornecer holding no ambiente escolar”, segundo Bogomoletz. Isso significa tratar cada aluno como ele precisa. O termo “inclusão”, se levado a sério, indica uma atitude de holding. O acolhimento adequado pode, portanto, ajudar uma criança regida por um self falso – geralmente boazinha e obediente – a se tornar mais espontânea. “No entanto, é preciso que a escola aceite as temporadas de ‘mau comportamento’. “Trata-se de adotar sempre uma postura tolerante e criar condições para que a criança desfrute de liberdade. Nada mais importante, nesse sentido, do que o papel da brincadeira – fundamental para Winnicott, não apenas na infância, por misturar e conciliar o manejo do mundo objetivo e a imaginação. “Brincar pressupõe segurança e criatividade”, diz Bogomoletz. “Crianças com problemas emocionais graves não brincam, pois não conseguem ser criativas.”

O cobertorzinho

O movimento da psique entre o mundo das coisas e as fabricações da mente é uma atividade “transicional”, adjetivo fundamental na obra de Winnicott. O conceito mais conhecido é o de “objeto transicional”, representado classicamente pelo cobertorzinho a que muitos pequenos se agarram numa determinada fase. “Esse objeto é ao mesmo tempo uma coisa objetiva – existe num mundo compartilhado – e subjetiva – para seu dono, ele faz parte de uma fantasia, possui vida própria”, explica Bogomoletz.

Dessa forma, o objeto transicional prolonga o período em que o bebê se acredita onipotente, enquanto ele substitui essa crença com a aceitação de uma realidade sobre a qual não tem controle nem pode modificar por meio da imaginação. O bebê se vê com poderes mágicos e, com o tempo, percebe a ilusão. Mas, com as brincadeiras e o aprendizado do mundo, a criança, o adolescente e o adulto retêm o poder de criar e adaptam-se às possibilidades reais. “A fantasia é realmente a marca do humano”, diz Bogomoletz. “Já a objetividade é uma habilidade que se aprende, como uma segunda língua.”

“A escola tem a obrigação de ajudar a criança a completar essa transição do modo mais agradável possível, respeitando o direito de devanear, imaginar, brincar”, prossegue o psicanalista. O respeito que os pequenos terão pela objetividade será incorporado por eles, jamais imposto de fora para dentro. Quando livres para criar, eles, segundo Winnicott, vêem no estudo um modo de exercitar o poder de invenção. Se, no entanto, o ambiente escolar não for aberto à brincadeira, “os recreios serão tanto mais selvagens quanto as aulas forem mais opressoras ou supostamente sérias”.

Formação nos campos de guerra

Donald Woods Winnicott nasceu em 1896 numa família rica de comerciantes em Plymouth, na Inglaterra. Ao entrar na faculdade de Medicina, foi convocado para servir como enfermeiro na Primeira Guerra Mundial, na qual fez as primeiras observações sobre o comportamento humano em situações traumáticas. Especializou-se em pediatria, trabalhando 40 anos no Hospital Infantil Paddington. Paralelamente, preparou-se para ser psicanalista. Trabalhou como consultor psiquiátrico do governo, tratando de crianças afastadas dos pais na Segunda Guerra Mundial. Em 1949, separou-se da primeira mulher, a artista plástica Alice Taylor. Dois anos depois, casou-se com Clare Britton, psicanalista e organizadora dos trabalhos do marido. Foi presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise e morreu em Londres, em 1971.

Análise da própria infância e marcas da psicanálise

O interesse de Winnicott pelo estudo da construção da identidade veio da percepção da influência sufocante da mãe depressiva em sua personalidade. Ainda criança, Winnicott enveredou pelos caminhos da observação científica ao ler os estudos do naturalista Charles Darwin (1809-1892). Já pediatra, conheceu a obra de Sigmund Freud (1856-1939), fez terapia e freqüentou o grupo de Bloomsbury – integrado, entre outros, pela escritora Virginia Woolf (1882-1941) -, em que a psicanálise era tema recorrente. Seu trabalho chega ao Brasil com a criação de várias instituições winnicottianas.

CORPO E AUTO ESTIMA

Como é difícil gostar de si , quando estamos alguns quilos acima da tabela e a balança acusa excesso de peso. Nossa auto estima é extremamente afetada pela visão que temos de nós mesmos e embora saibamos que nunca temos uma imagem real de nosso corpo ( sempre nos vemos diferentes do que somos , mais gordos, mais magros, mais novos, etc) . Temos tendência  de  ressaltar nossa força e qualidades , e  a negar ou minimizar nossas fraquezas e pontos fracos. Sempre  vemos o envelhecimento no outro e nossa imagem pessoal tende a se manter estática  como se o tempo não   passasse para nós.

De tempos em tempos, pode acontecer que nos assustemos com a imagem que o espelho nos devolve e que reajamos com estranheza como se aquela imagem fosse falsa, não correspondesse a nós mesmos. pois não conseguimos nos reconhecer nela. Essa característica humana explica a intensa dificuldade que os obesos têm para admitir que estão gordos, não se vêem de forma real.

O peso da cultura com seu ideal estético esguio,  a mídia que enaltece os corpos finos, esbeltos , até esquálidos, torna difícil que uma pessoa , em especial,  jovem, possa gostar de si quando não corresponde a essa imagem idealizada veiculada  como ideal .. Ser magro passou a ser um valor central na nossa cultura, A beleza hoje é um bem de consumo como outro qualquer . Não  teria problema nenhum querer ser bonita , o que se questiona é que para essa beleza existam padrões pré-determinados , como corpos magros, peitos grandes, cabelos lisos.

Um dos efeitos mais perversos dessa tentativa de controlar o corpo das mulheres é derrubar a auto estima e a capacidade de valorização das suas singularidades . Ter um corpo é ter uma identidade e alterá-lo para agradar aos outros , é uma forma de ser menos dona de si mesma denotando a imaturidade e a insegurança da mulher.  O ideal de magreza e beleza hoje está associado com a perspectiva de sucesso e felicidade. Subestima-se a possibilidade do sucesso através da  construção de  uma pessoa individual, com vida interior rica, inteligência e sensibilidade. mas sem ter de se curvar aos padrões estéticos.  O ideal de magreza passou a ser  sinal de sucesso, passaporte para se conseguir beleza, poder, dinheiro e valorização. Todas mulheres enfrentam diariamente essa pressão, escravas de uma cultura que lhes impõem uma   diversidade de ideais dos quais precisa  ao menos conseguir se aproximar: ser magra, ter sucesso, saber conciliar ser profissional, mãe e  mulher. Cansada diante de tantas   exigências  e atribuições, sentindo-se em dívida consigo mesma e com os outros, a mulher vive culpada e impotente  diante da constatação da impossibilidade de ser tudo isso que se exige dela..  Essa hipervalorização da magreza tem acentuado a relação entre a auto – etima e a imagem do corpo magro e afeta em especial aos adolescentes.

A auto estima  é resultante de tudo o que influi no que  valorizamos  em nós mesmo, o bom, o mal. nossos pontos fracos e os fortes.Nossa auto estima foi sendo formada desde a infância através dos olhares de nossos pais. Precisamos ter certeza de que somos amados pelos nossos pais, pelo que somos e quando não conseguimos essa segurança crescemos dependentes emocionalmente dos outros, do olhar do outro de aprovação e de admiração.

É a auto-estima que nos faz retrair e não participar de atividades que nos fariam ter de lidar e enfrentar nossos pontos fracos. Como é difícil, particularmente na adolescência não saber nadar, não ser bom de bola, ter um físico que não corresponde aos padrões valorizados.

Quando somos rejeitados por algo que não sabemos fazer, por alguma habilidade que não temos desenvolvida, posso pelo menos tentar compensar essas faltas, falhas, com outras características positivas  que posso ter : não sou bom de bola, mas sei dançar bem, sou bom ouvinte, entendo de musica,  sou bom aluno, tiro notas boas, etc. Mas quando a falha é no corpo, na imagem física como compensar de forma saudável ? .Não   é infrequente que adolescentes gordinhos tendam a se submeter passivamente aos amigos, comprando-os com a benevolência e passividade, deixando-se levar pelo grupo para ser aceito.

È com o corpo que temos , que teremos de enfrentar a vida diariamente, é com ele que temos de  impor, procurar ser aceito, interagir, A adolescência é um período cheio de inseguranças, dúvidas, inquietações  e nessa fase todo jovem precisa muito sentir-se aceito , amado e  valorizado pelo grupo, ser popular.

Enfrentar essa etapa com problemas de peso torna tudo mais difícil, e o adolescente se sente impotente, frustrado por não conseguir mudar essa situação. É muito difícil perder peso, mudar  hábitos, abrir mão de prazeres imediatos em busca de um emagrecimento que será lento e  instável,  e de uma imagem de si idealizada mas que demorará muito a se concretizar e se firmar.  É preciso gostar de si, acreditar que você é capaz  de fazer isso por você .É preciso se libertar dessa opressão e deixar de se posicionar como objeto no desejo  do outro. É preciso encontrar   o próprio limite, poder reinventar a cada dia, os caminhos do seu  desejo , e seguir buscando ser e estar cada dia melhor com você inteira e não  apenas com seu corpo.

Você merece ,  pode e deve ser feliz agora.Mesmo com alguns quilos a mais .Acredite que você pode mudar os ponteiros da balança a seu favor, depende só de você.   O importante é  não se acomodar, não se resignar, mas com inteligência ir planejando e construindo uma outra imagem de si que você pode e deve  construir.

Essa determinação  tem de vir de você, não adiantam fórmulas mágicas, remédios e regimes milagrosos,  você vai ter de aprender a se conter, a se educar, a distinguir fome de necessidade de comer. e aprender a adiar a gratificação de impulsos, substituindo prazeres  e focando em resultados a médio prazo.

Sucesso para todos que iniciarem essa caminhada. Vale a vida.

Inveja , ciume e voracidade na psicodinamica dos transtornos alimentares

A obesidade é uma realidade para um grande número de pessoas ao nosso redor e um fantasma que aterroriza todo o resto, podemos dizer com certa dramaticidade. Sabemos que é uma doença multifatorial e que cada obesidade é unica e nela intervém em doses diferentes, aspectos genéticos, psicológicos e ambientais.

Alguns casos de obesidade se enquadram dentro das “doenças psicossomáticas” e implicam a articulação de um conjunto de fatores : predisposição somática que depende da herança e da constituição , e na historia de vida deve ter ocorrido algum tipo de desproteção materna, provocando sentimentos de abandono e de frustração afetiva.(Fenichel)

A privação, a carência ou, a contrário, a “hipergratificação” determinam que certas catexias libidinais se fixem num órgão. Este seria o caso, por exemplo, de crianças que sofreram restrições na fase oral, sob a forma de ausência, dificuldades, ou interrupções abruptas e traumáticas no aleitamento; ou, por outro lado, que tiveram este processo excessivamente dilatado, recebendo gratificação oral por três, quatro, ou até seis anos; ou ainda, o processo foi de certa forma “pervertido”, com excesso na quantidade de mamadeiras. Assim, fica estabelecida uma predisposição psicossomática que pode desencadear-se em afecção, quando agem sobre ela situações traumáticas, críticas ou frustrantes, que fazem reviver na pessoa o primitivo abandono.

Nos transtornos somáticos, a necessidade de que as emoções em conflito (sentimentos de rejeição ou de desamparo, carência etc) não cheguem à consciência se consegue através do deslocamento para o corpo do afeto não simbolizado. A descarga se produz igualmente, mas o afeto não é reconhecido,é percebido pela consciência, como uma alteração somática desprovida de significação emocional.

No início da vida, a satisfação das necessidades depende das pessoas que cuidam da criança . Tudo que ameace este vinculo é um perigo e deve ser afastado. Nesta primeira relação pré-verbal, o caráter e as exigências da mãe, seu grau de sensibilidade às necessidades da criança, determinam em cada caso, que atividade mental ou que comportamento é indesejável e deve ser suprimido. A comunicação primitiva pré-verbal se estabelece através do corpo. A criança usa essa linguagem para fazer conhecer suas necessidades e a mãe para comunicar-se com seu filho. Esta linguagem corporal se reativa no adulto quando experimenta emoções que o corpo expressa normalmente, chorar por ter pena, rir por alegria, enrubescer por vergonha, ficar pálido de medo. Ao nascer uma criança se relaciona com o mundo através da mãe que é também a interprete das demandas vindas do meio exterior.

A criança que futuramente se tornará psicossomatica, foi privada desde cedo do contato emocional que necessitava. O filho desde bebê é o encarregado de acalmar a ansiedade materna e de satisfazê-la. As mães dos psicossomáticos  apresentam um sério fracasso para compreender as necessidades de amor e de descarga de ansiedade e de agressão em seus filhos, assim como para graduar suas próprias exigências de acordo com as possibilidades reais dos mesmos. Diante das situações de ansiedade dos filhos bebês, estas mães sentem-se impotentes e tendem, a associar o choro a situações concretas tais como fome, sono ou dor, pois estas situações lhes permitem apelar a recursos práticos( alimentar o bebê dando-lhe o seio ou a mamadeira, por exemplo ) que aliviam a sua própria ansiedade. Quando o bebê cresce, tende a resolver cada crise evolutiva, com modificações práticas. Estas soluções são reflexo da incapacidade familiar para conter os problemas emocionais e formam na vida adulta, a base da intolerância para aceitar seus próprios conflitos, ansiedade e temores.

Muitas pessoas com problemas de obesidade foram bebês atendidos em suas necessidades corporais básicas, mas sem gratificação dos aspectos emocionais envolvidos.A mãe das crianças com problemas alimentares, muito freqüentemente, privou de significado as expressões emocionais do filho ou distorceu o significado dessas expressões. Isso levará o bebê, no futuro, a ter dificuldades para entrar em contato com suas próprias e reais necessidades ou o levará a associá-las a uma conduta distorcida, substituta, por exemplo comer. É o caso de pessoas que diante de qualquer ansiedade não conseguem discriminar o que as inquietam, qual a sua real necessidade e respondem de forma indiscriminada com a comida. A incapacidade materna para decodificar as ansiedades do bebê unida à pressão que exerce para bloquear as manifestações de ansiedade do bebe, confirmam para ele suas fantasias infantis onipotentes sobre a destrutividade de seus impulsos hostis, de sua voracidade e inveja. Essas crianças necessitarão de recriar sempre um estado de fusão simbiótica para evitar a noção de diferenciação e a conseqüente ameaça de perda. Mais tarde, sempre que em situações de risco ou desequilíbrio, necessitarão se sentir cheias de alimento para recriar o estado fusional. São as funções maternas que criam as condições tanto para a criança confiar na presença real da mãe como para, logo depois, suportar a noção de diferenciação e a gradual individuação e suportar as ausências, tomar consciência de si, de seus desejos e aprender a providenciar o que necessita.

O estudo de alguns sentimentos humanos nos ajudam a compreender melhor a psicodinâmica da obesidade: são eles a inveja, a voracidade e o ciúme que muitas vezes se confundem..

A inveja é o sentimento de raiva em relação a uma outra pessoa que possui e desfruta (ou imaginamos que sim) de algo que desejamos. O sentimento invejoso é querer tirar isto dela, espoliá-la daquilo que ela tem e almejamos. A inveja implica a relação do indivíduo com apenas uma pessoa, a qual invejamos. Por isso, dizemos que ela remonta à mais primitiva relação exclusiva com a mãe.

“A inveja é um sentimento de cólera que o sujeito experimenta quando percebe que o outro possui um objeto desejável, sendo sua reação a de apropriar-se dele ou de destruí-lo. Além disso, a inveja supõe a relação do sujeito com uma única pessoa, remontando à primeira relação com a mãe….É o sentimento de ira por outra pessoa possuir e usufruir algo desejável, sendo o impulso invejoso de retirá-lo ou estragá-lo.”( Melanie Klein)

Devido à intensa dificuldade de aceitação em si dessas emoções, a inveja é muitas vezes camuflada, pois o sujeito lança mão de mecanismos de defesa inconscientes, para não se confrontar com tal emoção.( desvalorização do objeto invejado, negação, projeção, introjeção,idealização )

O sentimento de inveja é tão destrutivo que o indivíduo não consegue usufruir a vida, nem seus momentos de prazer e de alegria. Ele se sentirá sempre espoliado, explorado, não conseguirá obter prazer e felicidade na vida , nem conseguirá criar vínculos com as pessoas, porque elas serão sempre consideradas as culpadas por ele não alcançar aquilo que almeja. Além disso, a inveja dirigida ao outro tenta, no fundo tenta destruí-lo, deseja a sua morte, porque para o invejoso outro é o culpado por não obter o que deseja.

A inveja nasce de um profundo sentimento de admiração por algo que o outro possui. “Invejar é uma forma aberrante de prestar homenagem à superioridade .” ( José Ingenieros ).

A inveja é destrutiva quando o indivíduo cobiça o que é do outro e cobiça, ao mesmo tempo, prejudicá-lo, espoliá-lo, destruí-lo. Ela é construtiva quando a inveja move o sujeito a buscar por sua própria conta, de maneira construtiva, aquilo que o outro tem, para ele, sem tirar o que é do outro.

A inveja constitui fonte de grande infelicidade e uma relativa liberdade dela é sentida como subjacente a estados mentais de satisfação e tranqüilidade, em outras palavras, de sanidade.

A inveja pode ser benigna ou patológica. Na inveja benigna, há o desejo de adquirir o que o outro possui, mas por meio de um esforço próprio, estimulando, assim, a competitividade e não a destrutividade. Nestes casos, a pessoa deseja também para si algo bom, e quer provar que ela também é capaz de obter isso. Não envolve, pois, intenções hostis ao objeto da inveja. A pessoa invejada passa a ser mais um modelo a admirar, que estimula a imitação de seus métodos e a procurar obter o que ela possui.

A inveja benigna reforça a canalização de qualquer ressentimento e o transforma em atividades legítimas, promovendo um modelo de comportamento que deve ser seguido.

Na inveja patológica o que se quer não é ter o que o outro tem, mas, sim, destruir as posses, qualidades e bens, que, sendo do outro, despertam raiva e hostilidade. A pessoa pode ter recursos e, poderia, potencialmente, obter o que o outro tem, mas a simples visão das posses do outro, faz com que ela se sinta desvalida, sem posses e atormentada pelos sentimentos de inveja.

Podemos dizer que a pessoa muito invejosa é insaciável, que nunca pode ser satisfeita porque sua inveja se origina de dentro e, portanto, sempre encontra um objeto sobre o qual pôr-se em foco. O sentimento da inveja vai originar um outro, mais corrosivo, que é o sentir-se ameaçado ou invadido pelo outro.

Esta é uma formação reativa, no sentido de que aquilo que o invejoso deseja do outro, ele passa a sentir que é o outro que deseja dele, e, assim, desenvolve um sentimento persecutório, uma paranóia, achando que são as outras pessoas que desejam espoliá-lo e destruí-lo por desejarem o que ele tem. Contudo, analisando a fundo a situação, veremos que é o próprio indivíduo paranóico a origem do sentimento de inveja.

O ciúme baseia-se na inveja, mas envolve uma relação com pelo menos duas pessoas e refere-se ao amor que o sujeito sente como lhe sendo devido e que lhe foi tirado, ou se acha em perigo de ser tirado ou roubado pelo seu rival. Tem suas  origens nas primeiras relações da criança com seus pais e parece se dar na vivência edípica, quando a criança sente ciúmes do pai ou da mãe por eles se amarem, constituírem-se como casal, se acariciarem, dormirem juntos, e ela sentir-se excluída da relação do casal.

O ciúme faz o individuo temer perder o que tem; já a inveja é sofrida por ver o outro possuir o que ele não e que deseja para si. O invejoso passa mal com a vista da fruição. Aquele que se mostra afortunado, mostra-se de bem com a vida e satisfeito com o que possui, tanto em termos de bens materiais como imateriais, é fonte de grande mal-estar por parte do invejoso. Ele sente-se à vontade apenas com o infortúnio dos outros; todos os esforços para satisfazer um invejoso são vãos.

A criança do sexo feminino sente ciúmes, geralmente da mãe, porque ela obtém o amor e o afeto do pai, que a criança gostaria de obter. Ela gostaria de ocupar o lugar da mãe, por isso tem ciúmes dela. Já o menino tem ciúmes do pai, porque gostaria de ocupar o seu lugar junto à mãe.

A voracidade é uma ânsia impetuosa e insaciável que excede o que o indivíduo necessita e também o que o objeto se acha capacitado e disposto a dar. O indivíduo voraz é aquele que tudo quer e tudo deseja, e, mesmo tendo obtido aquilo de que se dizia necessitado, não se encontra satisfeito, nem mesmo momentaneamente. O indivíduo voraz é aquele que sempre considera pouco aquilo que obtém, sempre acha que mais lhe é devido, e que o outro retém algo que deveria pertencer a ele próprio.

Voracidade é, inicialmente, um desejo de incorporar, engolir, comer algo. Comendo e engolindo, o objeto passa a fazer parte do sujeito, torna-se incorporado a ele. Por isso é que a voracidade relaciona-se com o alimento. Mas ela extrapola o objeto alimento, e o indivíduo voraz pode ser insaciável de vários outros objetos – dinheiro, riqueza, beleza, presentes etc.- que correspondem, ao leite e ao alimento dado pela mãe.

A inveja e a voracidade são dois sentimentos que, muitas vezes, andam juntos. E também a voracidade tem suas origens nas primeiras relações com o seio materno e com o alimento.

Se a mãe for adequada, afetiva e der alimento suficiente e bom para o bebê, provavelmente ele será uma criança e um adulto sadio, que saberão lidar com suas faltas e com suas incompletitudes de maneira saudável. Significa que todos somos seres em falta, sempre desejaremos algo, nunca nos sentiremos inteiramente satisfeitos ou completos. Contudo, é isso mesmo que nos dá vida e motoriza nossa vida humana, que nos faz trabalhar, estudar, escrever livros, namorar, viajar, casar, emagrecer, ou mesmo engordar.

A criança pequena não se lembra desses sentimentos mas desejou muito ter o que a mãe tinha. Primeiro, o leite, que é considerado fonte da vida, do prazer, da alegria, riqueza indescritível, que a criança pensou ser exclusiva da mãe. Depois, desejou também possuir outros objetos que a mãe possuía, entre eles, o pai, os outros irmãos, bebês, o amor dos pais e das pessoas, a beleza. As primeiras relações do bebê com sua mãe são o período mais importante para a formação da personalidade do indivíduo, e é também o período que funda as bases de nossos sentimentos e nossa conduta em relação ao mundo que nos cerca, o que inclui os alimentos e todo o sentido que damos a eles e às refeições.

A gratidão é um sentimento de agradecimento, de boa vontade, de amor e de desejo de retribuição em relação àquele que é sentido como o provedor das necessidades da criança. Relaciona-se, assim, com a generosidade. Quando a criança é suficientemente satisfeita pela mãe, ela sente prazer na relação (amamentação, toques, cuidados) e, daí, vem a gratidão no lugar da inveja. A gratidão se configura como um aspecto do que chamamos de pulsão de vida, de impulsos amorosos.

A gratidão relaciona-se com a generosidade. A criança bem amada desenvolve uma riqueza interna que a torna capaz de partilhar seus dons com os outros. Esta criança se desenvolverá, geralmente, de maneira positiva, saudável, formando vínculos afetivos e duradouros com os que a cercam.

O alimento tem uma importância primordial nas primeiras relações de um bebê humano com a mãe. O seio tem não só a finalidade de nutrí-lo, mas também, a de auxiliar no estabelecimento dos primeiros vínculos do bebê com uma outra pessoa: a mãe. Esses primeiros vínculos com a mãe são a base para outros vínculos que a criança e o adulto estabelecerão com outras pessoas no decorrer de toda a vida. O bebê precisa tanto desse contato afetivo como precisa do alimento, do leite materno. A inveja e a voracidade, por um lado, e a gratidão, por outro, seriam expressões de impulsos destrutivos e amorosos, respectivamente, para com a mãe e seu seio nutridor. O modo de resolução dos primeiros impulsos para com o seio e para com a mãe influencia decisivamente o desenvolvimento normal e anormal da criança, e também a formação de seu caráter.

Dentro da díada mãe/ filho, a mãe que fala por seu filho indefeso, cheio de necessidade, oferecendo-se para suprir suas carências, preenche o bebê e ele a ela. Nesta complementaridade, o recém nascido traz como dote e bagagem uma matéria prima – energia psíquica, a pulsão – não processada nem elaborada, que passará por um processo de transformação, entrando no circuito da produção simbólica. O bebê vai adquirindo assim representações do vivido: o prazer e o desprazer. Estes significantes, prazer e desprazer é que permitirão ao bebê, discriminar as experiências que tem.

A inveja dificulta o processo de instalação duradoura do bom objeto, pois o bebê sente que a gratificação de que foi privado foi conservada pelo seio frustrador para si próprio. A inveja é, pois, o sentimento zangado de que a outra pessoa tem esse algo desejável para si. É o seio idealizado que a inveja ataca. É como se o bebê pensasse que quando o seio o frustra, torna-se mau porque guarda o leite, o amor e o carinho associados com o bom seio só para si. O seio que satisfaz também é invejado. A voracidade é uma ânsia impetuosa e insaciável que excede o que o sujeito necessita e o que o objeto tem vontade e capacidade de dar. O propósito da voracidade é a introjeção destrutiva, introjetar o objeto para destruí-lo, devorá-lo.

A mãe suficientemente boa é aquela que satisfaz adequadamente as necessidades da criança. Ela vai, gradativamente, introduzindo o que chamamos de princípio da realidade, isto é, vai adiando, aos poucos, a satisfação das necessidades da criança para que ela aprenda que o mundo e a realidade não podem satisfazer constante e imediatamente suas necessidades e seus desejos. Isso é chamado de binômio gratificação-frustração que a mãe introduz na vida infantil.

À medida que a criança cresce, ela suporta por mais tempo a frustração ou a não- satisfação imediata de suas necessidades. Assim, ela estrutura o seu eu, amadurece, aceita os limites e os obstáculos que a realidade lhe impõe sem sentir-se magoada, espoliada ou ameaçada. A criança aprende que suas necessidades e desejos não podem ser satisfeitos imediatamente. Aprende a esperar e a adiar a satisfação. Ela torna-se mais adaptada à realidade e mais tolerante às frustrações. Através da relação com o mundo externo, primeiro com a mãe, e depois com outras pessoas e coisas, a criança vai constituindo o seu eu, adaptado ao mundo e à realidade externa.

Contudo, se a mãe ou aquela que exerce a função materna não satisfaz adequadamente as necessidades do bebê, ela é sentida por ele como se estivesse retendo o alimento.É sentida como má, como alguém que deseja o aniquilamento e a morte do bebê , pois não lhe dá aquilo de que ele necessita para viver.

A mãe é também percebida, como alguém que guarda para si aquilo que tem de bom, que é o alimento, fonte da vida. Essa vivência é a base de todo um sentimento de inveja que o sujeito terá .A criança introjetará os aspectos negativos da mãe; ela assimilará uma mãe má, um seio mau, aquela que não dá o alimento necessário para a criança, aquele seio que não lhe dá o leite de que ela precisa. Estes aspectos negativos introjetados formarão o núcleo do eu da criança. Já se o seio é bom, se a mãe é boa, adequada, afetuosa, se nutre suficientemente, a criança introjetará esses aspectos positivos, predominantemente.

O sujeito que introjeta predominantemente os aspectos positivos e amistosos da mãe e do mundo externo sente-se enriquecido e com maior capacidade de dar e doar-se, maior gratidão e mais capaz de amar. Será o indivíduo generoso, desprendido e amado, porque capaz de amar.

O sujeito que introjetou os aspectos negativos e egoístas da mãe e do mundo externo sente-se empobrecido, roubado, ameaçado e perseguido quando, em alguma circunstância, tem de dividir ou dar algo de si. Tornam-se pessoas inseguras, agressivas e consideram sempre que o outro é que está a solapar algo dele. A inveja excessiva acaba por levar a sentimentos de culpa. O indivíduo sente-se culpado porque desejou despojar o outro dos bens materiais e não materiais que ele possui, portanto, desejo agredi-lo, destruí-lo.

Aqueles que sentem haverem tido a sua quota de experiência e de prazeres na vida tornam-se mais aptos a serem felizes e de acreditar na continuidade da vida. Assim, tornam-se mais aptos à criação e à invenção de novas coisas, novos objetos, novas possibilidades, novos projetos, enfim, de nova vida, que é o contrário da compulsão de comer, do engordar e da obesidade.

Ainda falando de Pai e revisitando o texto de Inez Lemos Cadê o Pai?

Hoje reli um artigo de Inez Lemos, historiadora e  psicanalista a quem muito admiro e a quem segui por muito tempo  em  cronicas e  artigos e no blog” amores urgentes” .

Hoje  posto aqui um de seus textos, Cadê o pai? pois este  traz elementos para enriquecer  nossa discussão sobre a função paterna e o lugar do Pai. Convido  voces a conhecerem o blog de Inez :http://amoresurgentes.blogspot.com.br .

Vale muito a visita.

Nesse blog Inez se apresenta em seu perfil e mostra seu percurso: ….” O percurso transdiciplinar possibilitou-me uma leitura ampla e complexa sobre os sintomas – as chamadas patologias da falta e do excesso: bulimia, anorexia, toxicomania, obesidade mórbida, gravidez precoce, excesso de consumo, vícios cibernéticos (internet), desrespeito e intolerância (atos racistas), indisciplina, violência e criminalidade. Tentando expandir o campo de reflexão e contribuir com o desafio da educação na sociedade de consumo, passo a escrever artigos debatendo os sintomas da sociedade contemporânea. Depois de alguns anos publicando no caderno Pensar do jornal Estado de Minas, e no intuito de atender aos leitores, resolvo reuní-los no livro Pedagogia do consumo: família, mídia e educação (Autêntica). Tanto o blog quanto o livro resultaram de uma demanda dos leitores por orientação na condução da educação na atualidade.”

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Cadê o pai?
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Ele não tem filho e começou a namorar uma moça que tem um menino. Este, somente aos cinco anos, conheceu o pai biológico porque a mãe entrou na justiça pelo reconhecimento da paternidade. O menino, que não estabeleceu vínculo forte com o pai, acabou tecendo laços afetivos com o namorado da mãe. Apesar do namoro se romper, o ex-namorado manteve a relação com o menino que até hoje o chama de pai.
Essa história coloca em cena o quanto é importante, para a criança, que alguém cumpra o papel de pai. Pai é aquele que enoda com o olhar e estreita nos braços. Não importa se o pai é empresário ou desempregado, silencioso ou carinhoso. A expectativa que a palavra pai provoca nos filhos é sempre de segurança, de quem protege e orienta. Eles sempre esperam do pai paciência, compreensão, lealdade. Pai mitologicamente é representação de referência, vetor – o experiente que conduz, sabe dizer sim e dizer não, permitir e proibir.

Sabemos que grande parte dos lares hoje são monoparentais, em muitos deles é a mulher quem exerce a função paterna. Importa registrar que, mesmo que o mundo vire de cabeça para baixo, os filhos vão querer saber: cadê meu pai? Uma coisa é certa: a garotada sente uma falta danada desse sujeito meio em extinção, haja visto os pais de aluguel, de quem os garotos não querem abrir mão.

A questão é chamar atenção para a importância da figura paterna. Ser pai num mundo que convoca o homem o tempo todo para a competição, que cobra dele sucesso financeiro, posição social e sexual, não é fácil. Se ele não empenhar sua imagem nesse modelo, poderá sentir que fracassou. Como convencê-lo de que seu sucesso não pode custar o fracasso do filho? Temos certeza de que um filho bem amado pelo pai, que pode com ele contar e desfrutar de sua companhia, jamais irá reivindicar na justiça a herança que esse não foi capaz de lhe deixar. No entanto, o contrário já ocorreu: o filho cobrar judicialmente o carinho que não recebeu do pai.

O homem precisa fazer jus aos significantes que definem o imaginário da paternidade – instância fálica que simboliza autoridade e peça chave na estruturação do sujeito. Sem passar pelo simbólico, nenhum pai vai conseguir impor autoridade. Há pai que deixa a criança sedenta de afeto. Faz promessas e não cumpre, nem explica por que não pôde cumprir. Muitos homens, separados, arrumam outra família e aproveitam da situação para abandonarem os filhos. Longe de moralismos, interessa reforçar a importância da presença e do carinho dos pais na formação e desenvolvimento psíquico dos filhos.

O mundo está cada vez mais povoado de jovens sem educação, violentos e criminosos, que divertem-se espancando e roubando. Com uma educação consistente, mães e pais atentos, crianças bem providas de afeto, conquistaremos um mundo menos violento. Pais, mãos à obra, essa tarefa é de vocês e carece ser cumprida. Nem todo garoto conta com a sorte de se deparar, pela vida afora, com um pai – seja biológico ou não, casado ou não – que o acolhe e o ame. Como fez aquele bom rapaz.
Postado por Amores Urgentes Inez Lemos

Continuando o tema da última postagem, é pertinente entender melhor  a importância e o lugar do Pai. Em toda instituição alguém tem que representar a lei , as pulsões humanas necessitam ser controladas e  sem normas e leis , a convivência ficaria comprometida.

Essa função de Lei deveria  ser desempenhada pelo pai, mas pode ser exercida por outra pessoa, pela própria mãe ou por outras pessoas que se relacionam e têm vinculo afetivo com a família.  Isso é muito importante de se pontuar, já que hoje temos um número muito grande de lares com a ausência real ou emocional da figura paterna, Predominam , infelizmente, os lares monoparentais onde a mãe é quem desempenha todas as funções junto aos filhos.  É muito importante  essa função do pai como interventor, impedindo o acesso livre do filho a mãe, como objeto de desejo . É necessário que alguém liberte o filho  da relação exclusiva com sua mãe e que coloque limites nessa relação . Essa função paterna , interditando o livre acesso à mãe e tirando-a do vínculo dual com esta, possibilita uma estruturação saudável da personalidade . Um bom pai, que assuma esse papel de lei e que consiga ter uma relação direta e  saudável com os filhos,. pode evitar muitos conflitos e adoecimentos, com formação de sintomas na adolescência.

O  pai deve ocupar seu lugar junto à mulher e tê-la como objeto de seu desejo , sustentando assim sua relação com ela e deixando isso claro na família : essa mulher é minha mulher, é sua mãe, mas minha mulher.  O filho tem de ser colocado no lugar do terceiro e não como parceiro da mãe.  Ao orientar seu desejo   para  a mãe de seus filhos, o pai torna claro o lugar de cada um na família. Passa assim claramente para os filhos a mensagem que  não podem  investir eroticamente a relação com mãe e que devem dirigir seus próprios desejos  para outros alvos que não  a mãe,  Esse direcionamento vai permitir que os filhos possam viver  sua sexualidade sem medo da punição do pai  por rivalizarem com ele e podendo assumir seu lugar e papel social na sociedade.

Se você quer ser um bom pai, seja um bom esposo

O psicoterapeuta e filósofo Piero Ferruci, em seu livro “O que as crianças nos ensinam”, confessa: “Precisei de tempo, mas no final percebi que a relação com meus filhos depende da minha relação com minha esposa. Não posso me relacionar bem com eles se não me relaciono bem com ela”.

A experiência clínica de Ferruci demonstrou que “cada ser humano é o resultado da relação entre dois indivíduos: seu pai e sua mãe. E essa relação continua vivendo dentro de nós como uma harmonia belíssima ou como uma laceração dolorosa”.

A conclusão disso parece clara: se você quer ser um bom pai, seja um grande marido. Se quer ser uma boa mãe, seja uma grande companheira para o seu esposo.

Isso parece simples, mas, na prática, não é. Por quê?

Precisamente porque nos acomodamos e abandonamos a relação conjugal à sua própria sorte. Com o tempo, vão surgindo os descontentamentos, incômodos, recriminações.

Quando um casal reage a tempo e recupera o lado belo do seu amor, os primeiros a perceber isso são os filhos.

Mas como manter e melhorar constantemente a relação conjugal? Este autor italiano é um grande romântico e acredita que a fonte do amor para os esposos radica na lembrança dos seus melhores momentos.

“Ao contrário do que muitos pensam, acho que o fato de apaixonar-se é o instante mais autêntico da relação entre duas pessoas; é quando veem que todas as possibilidades se abrem diante delas, quando tocam a essência e beleza do amor”, explica.

“Diante dos olhos da minha mente, desfilam nossos momentos mais luminosos: o primeiro passeio juntos, a decisão de nos casarmos naquela tarde de setembro, o dia em que ela foi me buscar no aeroporto em um dia chuvoso, o concerto durante a gravidez do nosso filho…”, recorda.

Tudo isso é a origem, a fonte: o lugar em que tudo vai bem e é perfeito. É positivo voltar de vez em quando às origens e beber daquela fonte de água pura.

Que tal tentar fazer o mesmo?
sources: pildorasdefe.net

Deparei-me com essa postagem no facebook e quis colocá-la aqui , para reter o tema e a possibilidade de conversarmos sobre isso.  Partilho dessa opinião e estou sempre repetindo para pais que me procuram: ‘ não tem como ser uma boa mãe sem se sentir  amada como mulher’ ,   Sem o amor do homem, sem a demanda e o desejo deste em relação a ela,  mulher, a mãe corre o risco de prender-se exclusivamente a sua relação com o filho e colocÁ-lo em um lugar que não é o dele .  O melhor que um pai tem a fazer por um filho é ser o companheiro da mulher, aquele que está ao lado da mãe e que a requisita como mulher, que a ama e a deseja.

Uma mulher não precisa apenas do homem como pai de seus filhos.Ela precisa do homem  enquanto amante, companheiro, parceiro. Espera desse homem um  desejo ardente, precisa sentir-se especial para ele e se frustra ao encontrar nele apenas o pai de seus filhos ,mesmo que seja um bom pai. A mulher precisa do homem, do companheiro para conseguir romper com o vínculo simbiótico que estabelece com o bebê;

A condição e função materna é particularmente espinhosa em nossa sociedade e é uma relação definitiva Uma vez mãe, sempre mãe. É  um caminho sem volta. Mãe boa, suficientemente  boa, excessivamente boa, abandônica, sufocante,  mãe  má , mas mãe, sempre mãe.;

Maternidade deveria pressupor antes  ser mulher/amante/ esposa, pois o filho é fruto de um vínculo ou deveria sê-lo; .  Sei que estamos  em uma época onde o papel desse pai tem sido menosprezado e até dispensado Época de fecundação in vitro, bancos de esperma, barriga de aluguel.

Aumentam-se as chances de um maior número de mulheres tornarem-se mães ; mesmo sem ter de investir primeiro na formação de um vínculo  com um homem. Pode não existir o ideal, mas existe o natural que se apoia no biológico: ,  Um filho precisa de pai e mãe e não apenas de um desses , e  nunca um sòzinho,  pode suprir totalmente  o papel e a falta do outro. Uma mãe sem marido, tende a manter  uma relação muito exclusiva com o filho, guardando-o só  para si , Vive em função dele e isso comprometerá  o desenvolvimento emocional  da criança .A manutenção  dessa relação exclusivamente dual com o filho, muitas vezes como substituto do cônjugue, interfere negativamente no desenvolvimento psicossexual do filho (a).

Se uma mãe quer ser boa mãe, deve primeiro encontrar o seu próprio caminho, seu  desejo, seu projeto, aquele que lhe dê prazer e que a faça feliz  e aísim, poderá ser  uma melhor mãe .Muitas vezes a mãe não requisita o homem para que ocupe seu  lugar ao lado dela e este  por seus motivos pessoais e historia de vida, fica passivo e à parte. Dessa forma o papel do pai fica em declínio , como algo insuficiente ou dispensável. Creio que essa posição traz muitas  dificuldades ao desenvolvimento psicossexual da criança e para suas identificações;  A mãe não deve negar ao filho a verdade do seu desej:  tem necessidade do homem assim como as crianças têm sempre necessidade do pai ( aquele que completa a mãe, que faz parceria com ela  )

Um pai  afetuoso , amoroso, que consegue colocar-se em segundo plano quando surge um bebê  na família  e que ajuda a mãe a  ser mãe, –  uma boa mãe, – permitirá a uma jovem e insegura mãe , que supere  suas primeiras dificuldades para ser mãe, e consiga sentir se reconhecida e apreciada por seu papel materno. O pai só pode desempenhar  seu papel de pai, igualmente  insubstituível . se a mãe o  introduzir junto a criança , deixando  um  espaço para a sua palavra , para sua função  paterna.