” Meu filho faz xixi na cama” . O que fazer ?

Enurese é o termo que se refere ao ato de molhar a cama durante o sono após a idade considerada normal para se obter o controle do esfíncter vesical . Muitos médicos adotam a idade de 5 anos como limite para que essa “ incontinência “ seja considerada fisiológica. O certo é que a grande maioria das crianças obtém o controle vesical diurno antes dos dois anos e meio e o noturno ate os três anos e meio.
Não se deve confundir a enurese com incontinência urinária de origem orgânica que, normalmente, se segue a alguma infecção do trato urinário ou, mais gravemente, em problemas neurológicos.
Deve-se consultar um médico se:
– surgir alteração na freqüência das micções ou na quantidade de urina produzida durante o dia.
– a criança acusar dor, ardor , dificuldade ao urinar ou se a urina apresenta cor turva, rosada e mau odor. Presença de sangue na roupa íntima também merece atenção.
– o jacto miccional for fino ou apresenta pequenas perdas de urina pós micção.
– houver perdas diurnas de urina, exceto se originadas de retenção voluntária, por parte da criança, durante a prática de esportes, ou quando estiver diante da TV por muito tempo .
– acontecer alteração súbita da personalidade ou do humor.
Mesmo que tenhamos dados que nos levem a pensar que a enurese de uma criança é psicológica, é importante que se faça uma visita ao pediatra para afastar qualquer possibilidade de algum comprometimento orgânico.( diabetes, bexiga neurogênica , infecções etc. )
É fundamental relembrar que a enurese é involuntária; assim, a criança não deve ser castigada ou culpabilizada. Um ambiente de ansiedade ou de rigor excessivo resultante desse problema pode tornar mais difícil a superação .
A grande maioria dos casos de enurese são de origem psíquica, seja como sintoma neurótico, psicossomático ou mesmo distúrbio reativo.
Muitos pais resistem em levar a criança ao médico ou psicólogo porque eles também foram enuréticos e consideram que é normal que os seus filhos também o sejam. Desconhecem no entanto, que existem tratamentos eficazes, para o caso . Muitas crianças podem se tornar tímidas e inseguras devido à enurese pois receiam dormir na casa de outras pessoas, ou temem receber visitas, com medo de que elas percebam “ seu problema”.
Se um dos pais foi enurético, a chance do seu filho apresentar o mesmo problema é de 44%. Se pai e mãe apresentaram enurese na infância, a chance aumenta para 75%. As causas da enurese originam-se de problemas hormonais, alterações anatômicas,alterações urológicas , alterações neurológicas, musculares, infecciosas ou psicológicas. A grande maioria do casos de enurese são de origem psíquica. como sintoma neurótico, psicossomático ou mesmo distúrbio reativo. A enurese noturna acomete mais meninos do que meninas.
Crianças sem nenhuma patologia estruturada podem, contudo, apresentar enurese após os quatro, cinco anos de idade e até mais, por múltiplas causas como :

 hereditariedade: existe uma história familiar de enurese num familiar/manifestação psicossomática
 maior produção de urina durante a noite devida à ingestão de líquidos antes de se deitar, ou durante a noite através das mamadeiras noturnas , por exemplo;
 ser incapaz de acordar com a vontade de urinar;
 problemas psicológicos. Como exemplo , podemos enumerar o stress da criança por conflitos familiares ou escolares, os ciúmes pelo nascimento do irmão, a agressividade, a depressão, as inter-relações familiares e o desenvolvimento psicoafetivo.

Como ajudar a criança na obtenção desse controle?

O primeiro passo é observarmos o ambiente e as atitudes familiares,já que a enurese é quase sempre sinal de deficiente adaptação emocional perante dificuldades ambientais, o que leva a criança a regredir ansiosamente para as primeiras fases da infância. Que dificuldades afetivas a criança pode estar enfrentando? houve o nascimento de um irmão? o casal está passando por uma fase conflitiva ou se separou
? Como foi feito o treinamento do esfíncter ? A criança foi condicionada precocemente ao uso do pinico? Houve um excesso de disciplina e exigências ou ocorreu demasiada tolerância? A criança apresenta outras imaturidades e problemas emocionais como tiques, dificuldades alimentares ou distúrbios do sono?
Com base nas respostas a esses questionamentos pode ser elaborada a primeira abordagem motivacional e corretiva do problema. Através de entrevistas familiares podemos orientar como abordar a questão com a criança e o modo como os pais devem se portar diante do descontrole vesical .
No caso de excesso de tolerância ou de perda do controle obtido por condicionamento , antes que a criança estivesse madura para isso, a conduta adequada seria uma reeducação planejada,
A criança deve ser informada sobre o funcionamento urinário e o “sintoma” deve ser desmistificado para que a ela não se sinta vitima submissa e culpada.

Pontos importantes na reeducação :

 Ofereça à criança uma recompensa nas noites secas e também aos mínimos avanços (acordar seco após a sesta ou noite; acordar para urinar ) O método de estimular mediante prêmios pode dar bons resultados
 Dizer à criança que ela já não é um bebê, que cresceu e pode mandar no seu xixi. ..
 Confeccione e mostre à criança um calendário em que são desenhados sóis nas vezes que ela acorda seca . Caso não surja logo efeito, abandone o método. .
 Não deixe a criança sentir-se culpada. Quando ela acordar molhada , explique que é uma situação transitória e que isso acontece também, com outras crianças .
 Use um protetor de colchão por baixo dos lençóis ou um protetor absorvente por cima deles. Evitará incômodos e maus odores.
 Chame seu filho para ajudá-la a mudar a roupa da cama molhada, não como um castigo, mas para que ele aprenda a cuidar de si.
 Estabeleça uma regra familiar que proíba qualquer tipo d gozação . Ao mesmo tempo, mostre à criança que o xixi é dela e que ela é capaz de controlá-lo pois já tem idade para isso .
 Não encorajar o uso de fraldas;
 Mostre à criança que é preciso que ela vá ao banheiro antes de se deitar e que deve evitar ingerir grandes quantidades de líquidos à noite .
 Despertar a criança, poucos horas depois de ela ter adormecido, para que faça xixi, nem sempre dá bom resultado

As crianças menores que molham a cama , apenas algumas vezes na semana , são as que têm maior probabilidade de se curar espontaneamente ou através do calendário já citado .
A reeducação deve ser administrada por um prazo curto , ou seja, entre um e três meses . Ao fim desse tempo espera-se a remissão do sintoma. A tendência hoje é de consultar algum especialista médico e/ou psicólogo , se o problema persistir após os 4 anos e 6 meses de idade.
Em alguns casos, tratando-se de crianças maiores de 7 anos, e diante de uma certa urgência em resolver o problema, alguns especialistas recomendam o uso de medicamentos . O pediatra é quem deve avaliar e concluir pela necessidade do uso de um antidepressivo como Tofranil ou Desmopressina,

TRATAMENTOS

Antes de um possível tratamento é necessário diagnosticar o problema para verificar se a enurese é decorrente de algum distúrbio orgânico, conseqüência de imaturidade neurológica, ou se a causa é psicogênica.( traumática? Primária e em geral psicossomática ou secundária , neurótica? )

Existem varias linhas de tratamento e cada uma pode ser eficaz para casos específicos. Assim é preciso estudar a criança como um todo, inserida no seu contexto ambiental e familiar. Quando o contexto neurótico está em primeiro plano ou se há prevalência dos determinantes psicológicos, é aconselhável procurar um psicólogo para uma terapia de abordagem cognitiva ou analítica .

Abordagem cognitiva
A abordagem cognitiva/comportamental da enurese , que deve ser conduzida por um especialista , pode ser eficaz no tratamento da enurese, mas exige esforço e colaboração por parte da criança e da família .
O tratamento com alarme (dispositivo que apita ou vibra com as primeiras perdas de urina quando a criança dorme ) é o mais eficaz . Existem aparelhos como o “alarme de cabeceira”que consistem num “tapete” com sensores de urina conectados a uma caixa de alarme. Ao dormir, a criança liga o aparelho, que é acionado por uma bateria que detectando a umidade da urina faz com que ela desperte. No início, ela acorda quando já está fazendo xixi na cama podendo terminar de fazê-lo no banheiro. Com esse método ela aprende a contrair os músculos e depois de algum tempo ela se condiciona a levantar antes que o aparelho seja acionado. Os estudos mostram que, a partir daí , ela começa a produzir mais hormônio deixando de fazer xixi na cama. Há também tratamentos com hormônios sintéticos, mas quando a criança deixa de tomá-lo, na maioria das vezes, o problema volta.

A manutenção da motivação da criança durante o período de qualquer tratamento é fundamental e deve ser acompanhada por um profissional.

Abordagem analítica

A enurese é, talvez, um dos principais sintomas utilizados pela criança para reclamar atenção e mostrar a necessidade de ajuda, ao refletir, de forma inconsciente, conflitos internos, angústia e depressão.
Em geral a maioria dos casos de enurese e encoprese( falta do controle sobre as fezes ) é resultante de problemas emocionais e orgânicos. Mesmo quando originário de causas orgânicas, predisposição genética , etc. “o fator psíquico está presente para dar significado a elas. A encoprese é mais preocupante e também mais rara do que a enurese acometendo mais os meninos.
Fatores como a ansiedade e o stress, dificuldades emocionais na criança decorrentes de conflitos familiares ( separação ou briga dos pais, ambiente violento, abandônico, nascimento de irmão ) podem estar na origem da enurese noturna. Alguns estudiosos consideram a enurese um sintoma “pulador” já que não está ligada a um só tipo de conflito podendo ser utilizado para expressar diversas necessidades e angustias ou seja, ter uma multiplicidade de sentidos.
As matérias fecais e, em menor grau, a urina veiculam uma forte carga afetiva, que pode ser positiva ou negativa, mas que permanece ligada ao corpo. A aquisição do controle dos esfíncteres ocorre ,primeiro, com o prazer da expulsão; depois na retenção e em seguida no par retenção/expulsão. A natureza do investimento nessa função dependerá muito do tipo de relação entre mãe e filho, do treinamento recebido , além do significado que tem para a família a higiene e o sujo . Muitas mães vigiam e controlam essa função. São muito exigentes com limpeza e, às vezes. chegam a treinar precocemente seus filhos devido a essas características. Passam para o filho a satisfação que sentem quando eles se enquadram na sua exigência . Como conseqüência, o controle autônomo, que deveria ser feito pela filho, não é obtido ficando ainda ligado na sua relação com a mãe com as possibilidades de agradá-la ou frustrá-la com seu xixi. A criança pode até obter o controle por condicionamento mas não adquirirá a autonomia .

A incapacidade da criança de conter a angústia faz com que ela não consiga controlar os esfíncteres deixando fluir, de uma forma simbólica , o que não consegue conter.Pais ansiosos contribuem para a ansiedade dos filhos. A enurese pode funcionar como forma de chamar atenção de uma mãe pouco atenta, ou de retaliação a pais autoritários, críticos ou muito exigentes. Crianças imaturas, ainda incapazes de lidar e gerenciar suas emoções, podem liberar suas angústias através do xixi..
Para a psicanálise, a enurese está relacionada com o sentido dado pela criança às relações de prazer e de desprazer na troca de afetos com as pessoas. Pode ser expressão de um prazer primário de funcionamento da fase anal ou uretral, indicar uma relação erotizada com os pais, ao modo do masoquismo erógeno ou moral, expressar uma afirmação do prazer fálico no menino ou de reivindicação na menina. Pode ainda ser um equivalente masturbatório , em sonhos em que se encontram figuradas uma cena primitiva com fantasias de castração ou sedução pelo adulto.
.A enurese é, como todo sintoma, uma forma de linguagem utilizada pela criança para comunicar que alguma coisa não está bem com ela. O xixi e o cocô externam muitos significados e as dificuldades relacionadas a eles podem ter origem anterior ou posterior ao período de retirada das fraldas. Em qualquer momento da vida da criança, esse descontrole dos esfíncteres pode aparecer. Os treinamentos muito severos, sem o carinho que esse procedimento merece costumam deixar seqüelas. Percebemos com freqüência que crianças enuréticas insistem em se manter num estágio regredido, incompatível com a sua idade cronológica. Em geral são crianças que não atingem o estágio de desenvolvimento psíquico próprio da idade e não conseguem se interessar por outras coisas nem se preparar adequadamente para novas aquisições.
É importante saber que, independentemente do tratamento utilizado, as vezes, são necessários vários meses para se tratar da enurese.
Em alguns casos, a criança enurética pode ” desaparecer ” com o sintoma, e isso ocorre por volta dos 11, 12 anos, quando já está entrando em outra fase do seu desenvolvimento psicosexual. Contudo é importante ressaltar que, nesse caso, a criança foi afetada em sua personalidade pela persistência desse sintoma por tantos anos.

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