Viver é perigoso?

Se me pedissem que desse um único conselho que fosse mais útil para a humanidade, seria este: espere alguma dificuldade como uma parte inevitável da vida, e quando ela chegar fique com a cabeça erguida, olhe-a direto nos olhos e diga: – Eu vou ser maior do que você. Você não pode me derrotar”. Ann Landers

Viver é muito perigoso, porque ainda não se sabe. Porque aprender a viver é que é o viver mesmo. ( Guimarães Rosa)

VIVER É PERIGOSO?

Sim, difícil e perigoso mas  pode ser também muito gratificante, emocionante e  prazeroso . Não escolhemos viver e fomos lançados neste desafio  da vida, nessa grande aventura do  viver através do desejo de nossos pais  mas, ainda na primeira infância , temos de assumir o comando de nossa vida para adquirirmos o estatuto de sujeito.

Podemos construir percursos, descobrir caminhos e coisas, encontrar pessoas, envolver-se em projetos e, correr atrás de nossos sonhos,  mas podemos também nos deixar levar pela correnteza da vida, ou submeter nossa vida aos desejos de outros. Quando não assumimos as rédeas de nossa própria vida, o caminho  pode ser mais fácil mas,  assim dependentes , nos despersonalizamos.

O que nos amedronta na vida, o que torna o viver perigoso, é essa característica de pessoalidade,  essa unicidade, e  o fato de não podermos transferir nossa vida para ninguém, sem pagarmos o preço de nos perder.

A vida não é simples como muitos querem nos fazer crer, como se  as dificuldades fossem fruto de algum erro ou inabilidade pessoal. Tampouco a vida  pode ser  tão feliz e alegre, sempre, como nos cobra a sociedade  e como parecem nos prometer  as  propagandas e a Serotonina  tão em voga na atualidade . A utopia da felicidade a qualquer preço, da saúde perfeita, do corpo perfeito,  e a exigência de felicidade, faz com que sofrer pareça uma ineficácia existencial  ou disfunção físico química  que devem logo ser sanadas.

Freud dizia que o homem anseia pela felicidade que advém da satisfação de prazeres e  é essa busca que o move( princípio do prazer)  mas  adverte que a felicidade não pode ser plenamente alcançada, ela é uma utopia.  Uma felicidade intensa após a realização de um desejo  logo se atenua e se transforma em um sentimento de contentamento .  A felicidade e o prazer proporcionados pelo alcance dos objetos do desejo se esvaem , tão logo os adquirimos. Experiências negativas como o fracasso e as  frustrações a tornam finita .No máximo o que se pode conseguir, é uma felicidade parcial.

Viver envolve riscos sempre.  Corremos risco no encontro com o Outro, na convivência difícil, no encontro com o inesperado, na falta de garantias e no imprevisível. Mesmo fazendo tudo certo  não temos a garantia de que as coisas darão certo, o que nos leva a concluir que nem tudo depende só de nós..

A vida é dura e nem sempre é justa. É impossível  levar adiante qualquer coisa na vida, seja no âmbito pessoal, profissional, familiar, financeiro,  sem enfrentar desafios, entraves, obstáculos,  e sem ter de vencer as etapas necessárias para nossas construções

Não se vive só, embora seja necessário  aprender a ser só. Não se pode viver em comunidade sem estabelecer laços, logo é importante tentar , por mais difícil  que seja, conviver com os outros.  Viver é conviver. Não existe receita de bem viver,  nem  fórmula  mágica. Cada um vai ter que enfrentar, à sua maneira, as dificuldades inerentes à vida e a convivência, de forma amigável,solidária, passiva, agressiva, intensa, , vibrante, truculenta, assertiva ou desconfiada.

Cada um faz o que pode e não o que deveria fazer. Mesmo fazendo o que  nos parece melhor , somos em parte prisioneiros de uma estrutura relacional herdada e construída nos primeiros anos de vida que podem fazer essa convivência ser mais ou menos penosa, mais ou menos  possível. Ninguém   é perfeito. Não  existe o ideal embora possamos tentar alcançá-lo mesmo sem a fôrma do ideal.

Aceitar a realidade de nossa incompletude, de nossa fragilidade, de nossa imperfeição , de nossa impotência, já é uma grande e importante conquista alcançada apenas por uma parte das pessoas e à custa de muito esforço. Nossa fragilidade, nossa incompletude, nossa dependência nos assustam  Viver envolve sempre o outro.É desse  relacionamento com os outros que provém as nossas maiores  dificuldades, os nossos  sofrimentos.  Freud dizia que os  relacionamentos humanos são, igualmente , nossa maior fonte de prazer como de desprazer. Nossa vida se atrela sempre ao outro: filho, companheiro, amigo, pai, mãe, chefe, vizinho e nossa relação com o outro é quase sempre ambivalente, com nuances diversas de amor e ódio.

Amor e ódio caminham juntos e muito próximos.Fazem parte de toda relação mais intensa e é preciso constatar que o contrário do amor não é o ódio e sim a indiferença.

Amar e ser amado  é a mais importante demanda humana   e o amor pode ser um caminho para a felicidade . Por outro lado o amor nos confronta com a vulnerabilidade, com a impotência, de vez que podemos  perder nosso objeto de amor, não conquistá-lo, ou ver que o  sentimento que o outro nutre por nós pode acabar. Não há garantias. .

Quando amamos passamos a querer ser considerados  como objetos de desejo do outro. A pessoa  passa a ser muito importante. Se somos contrariados, frustrados, sentimos raiva, decepções e desilusões e tememos perder esse lugar de desejado. As tensões entre as pessoas , em especial as mais importantes para nós, são inevitáveis. O medo e o risco de perder estão sempre a nosso lado, mais ou menos conscientes, e quanto maior for  o medo, menor a possibilidade de lidarmos saudavelmente com os conflitos do relacionar. Só não perde quem nada tem,  quem nada encontrou,. Só podemos perder aquilo que temos. Não se perde um ideal pois este não é real, Para ter , temos de correr riscos.  Enquanto houver vida  haverão riscos, erros e também acertos. Só não erra quem nada tenta, quem não luta por nada.  Quantas vezes, por medo de perder,  fugimos das oportunidades de amar e  de realizações . Se perdermos o medo de errar, de correr riscos, de conseguir entender nossos desejos, nossas verdades e, por fim, se obtivermos êxito em focar nossa vontade no sentido de correr  atrás de realizações, o viver pode ser muito bom.

As dificuldades na convivência e na realização de nossos desejos de amor não devem,  contudo,  nos fazer desistir da busca. Muitos se acostumam a moderar suas reivindicações de felicidade como forma de evitar o sofrimento;outros atuam  atrelados ao principio de realidade procurando ser felizes com o que já tem  ou buscando o que é mais  conveniente e  seguro , como forma de uma sobrevivência  que evita problemas e dores . Muitos se resignam  evitando o sofrimento com o descarte da busca do prazer. Podemos evitar sofrimento  não viajando, não mudando de emprego, não arriscando uma nova relação. se isolando ao manter distância das pessoas. Porém, o que obtemos com essa atitude não  é prazer, não é felicidade e sim apenas quietude, ou um estado de alivio de tensão, mas sem vida , pois viver requer  movimento e emoção.

Prazer não pode ser alivio de sofrimento. O  bom não pode ser apenas aquilo que parou de doer, assim como  saúde  não é ausência de doença .

Nem sempre conseguiremos o amor que buscamos assim como não temos  como alcançar tudo que desejamos. Ainda assim desejar é preciso e é nossa salvação. Teremos  que aprender a ser felizes  , ponderando sobre quanta satisfação real podemos esperar do mundo , quanta força dispomos para alterar o mundo que nos cerca a fim de adequá-los aos nossos desejos e  estes a ele.

Enfrentar as duras realidades da vida requer coragem. A coragem diante do desejo é uma virtude. Não recuar diante do desejo é nos dar a chance de chegar mais perto dos momentos de felicidade. Vale sempre à pena tentar ,  mesmo se aquilo que desejamos parece inalcançável. Vale  o  risco mesmo quando houver fracasso. Churchill  dizia  que  “A coragem é a primeira entre as qualidades humanas, porque é a qualidade que garante todas as outras”. É preciso coragem para viver, para ousar, para lutar , para deixar pra trás aquilo que não nos faz bem, para abrir mão de pseudo prazeres, segurança e garantias.

Freud nos ensina que, assim como um negociante cauteloso não cometeria a insensatez de empregar todo seu capital somente num tipo de negócio, a própria sabedoria popular nos alerta a não depositar nossa expectativa de felicidade e de satisfação numa única aspiração. Embora ele  assegure que “não existe regra de ouro que se aplique a todos”, alguns caminhos nos levam à felicidade. Acalentemos um amor, zelemos pela família, ocupemo-nos com prazer, apreciemos (com moderação!) as “suaves narcoses”, cultivemos sinceras amizades e, para que não sejamos dilacerados, resignemo-nos ao inescrutável propósito maior, no caso de tudo falhar.”

Guimarães Rosa nos diz que viver é aprender a viver: “O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos… Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s